Estão tentando riscar a morte das nossas vidas. Já não existe os olhos nos olhos (ou no vazio) que brilham por dentro do capuz. Nossos bichos mortos vem esterilizados em bandejas de isopor nos supermercados. E compre saquinhos de AB à parte se quiser uma galinha a cabidela. Nossos parentes ignoram a chegada da morte atados em máquinas que respiram, mastigam, apitam por eles e quando a hora chegar serão encontrados com uma miríade de fios nos pulsos e ninguém para segurar sua mão. E eles morrem e não seremos nós a fechar seus olhos e só nos dignaremos a vê-los de novo depois de vestidos na sua melhor roupa de festa, penteados, perfumados e corados da maquiagem lindamente aplicada para nos fazer acreditar que estão apenas dormindo. Dormindo! Como se tivessem esquecido que iam a alguma festa e dormissem naquela posição estúpida e desconfortável em seu caixotinho de madeira rodeado por velas e flores pretensamente cerimoniais (mas preste atenção, menino, preste muita atenção) mas que estão lá simplesmente para esconder a verdade que é o cheiro do morto, a verdade que é que ele está frio e que fede.
Posto que restam poucos a transitar na necrópole minguante e paralela, médicos, assassinos, funenários, açougueiros e matadouros e vez ou outra alguma criança que com crueldade inocente observa o peixinho que se debate ou esmaga uma aranha entre o indicador e o dedão. E que podem seguir em frente com olhos grandes e sem piscar e sem jamais, sem jamais desviar o olhar.

14 Comentários
Setembro 10, 2007 às 9:23 pm
Uma infuência dos vizinhos é sempre saudável, mantém a turma do bairro unida e etc, né ?
Setembro 11, 2007 às 3:29 pm
Morte.
Forte…Bonito.
Setembro 11, 2007 às 4:21 pm
Epa! Já li esse textaço noutro brog!
Bem sacado e colocado
como os ares a sina
dessa moça czarina
Setembro 11, 2007 às 4:53 pm
ó/
É, você. Sabe como ninguém fazer isso.
Um beijo.
Setembro 12, 2007 às 1:48 am
gosto de esmagar formigas.
Setembro 12, 2007 às 9:30 pm
Crueldade inocente? (Paradoxos…)
Também gosto de matar formigas! Ñ as suporto vivas!
Fortíssimo, esse…
(Porque, ainda que de vez em quando, eu visito este teu blog!)
Setembro 13, 2007 às 1:49 am
Sempre melhor este lugar! Nunca deixo de vir, apesar das adversidades dos tempos…
Bjs.
Setembro 13, 2007 às 7:17 pm
das piores faltas de morte: ninguém mais morre de amor…
Setembro 14, 2007 às 12:08 am
Vc já leu História da Morte no Ocidente?
Setembro 14, 2007 às 1:26 pm
:*, minha flor.
Setembro 17, 2007 às 1:24 am
Ah, meu! É assim mesmo.
E morto lá consome algo?
Povo que muito consome, logo é consumido…pelas minhoquitas!!!!
Setembro 18, 2007 às 3:30 am
Olá Czarina.
Indiquei o seu poema “Incerto” para o Prêmio Caneta de Ouro – Poesia “In Blog”
Se aceitar participar do concurso vc deve indicar 5 poemas tb
então dá uma olhadinha nas regras http://poemasdeandreluis.blogspot.com/2007/08/prmio-caneta-de-ouro.html#links
Abraço.
Setembro 19, 2007 às 3:41 pm
esses dias eu tava pensando exatamente em como as pessoas andam afastadas demais. não se olham direito, não se tocam, os sorrisos e os abraços são falsos e por mais perto tudo fica tão distante.
uma espécie de subvida a qual e gente se adaptou, quase tão fria quanto os fios e ninguém pra segurar nossa mão.
Setembro 19, 2007 às 10:57 pm
é… morrer é algo em que todos têm sucesso… mais cedo, ou mais arde.
textaço.
Czalinda de morrer!
:*