prefiro o barulho do mar

Minha mulher disse “Jorge… fica”. Eu não disse nada, só lhe dei um beijo na testa. E então um na boca. Daí me afastei pra empurrar a balsinha.Entrei n´água até os joelhos antes de subir na embarcação, e daí sentei com as pernas no mar, olhando pra areia. Não sei se ela podia ver o mar, por causa da própria água que enchia seus olhos.
Há dois dias flutuo no deserto de água e sal. Como a bolacha. Rio só. Sou tudo que existe entre o azul de cima e o azul de baixo. O sol nasce, e tudo brilha. Quando anoitece, cada estrela é duas.
Sou um homem magro e salgado. O mar e o céu brigam, um quer me cuspir pra baixo, o outro quer me cuspir pra cima. Permaneço, enquanto a queda de braço durar.
Há cinco dias ondulo. Como peixe cru e bebo água de chuva. O mar é minha cadeira de balanço. Vi um barco antiontem. Pensaram que eu fosse um náufrago, e depois, um maluco.
Oito dias n´água. Acordo com respingos salgados no rosto. Salgadas como as lágrimas de Sofia. Talvez sejam as lágrimas de Sofia. Talvez ela ainda esteja chorando. Talvez eu não tenha partido. Talvez eu esteja na praia, ainda. Mas sinto o marulhar abaixo de mim e sei que não é verdade.
Décimo dia, minha jangada não tem remos, nem motor, nem leme. Ainda assim, segue exatamente para onde quero ir. Para o coração azul do mundo. Para a extensão quase infinita e inexplorada, porque os homens estão todos muito ocupados. Os homens de pés no chão e o vento em suas cabeças. Homens sem amor, bonecos de areia. Mas eu, eu não. Por que ser Jorge é ser coisa molhada. Porque minha verdade é fluida e minha alma é bruma.
Porque meu coração, quando bate, espuma.

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estrelas decadentes

as pessoas perseguem sonhos
como crianças correm atrás de bolhas de sabão
porque é divertido
não me importo se alcanço ou não

as pessoas perseguem sonhos
como um cão atrás de um carro
não por que o quero realmente
só estou tirando um sarro

as pessoas perseguem sonhos
como um cão acompanha o dono
porque estes sonhos, quando alcanço
me ninam em noites sem sono

as pessoas perseguem sonhos
como um gato persegue um rato
porque quando eu alcanço um sonho
eu mato.

Anaximandro, o Falastrão parte 2: just do it.

Passaram-se alguns anos. Um ou dois apenas, durante os quais Anaximandro vagou por diversos reinos e protagonizou incontáveis aventuras. Não caberão aqui todas elas, mas podemos citar algumas das menos usuais.

No reino dos gigantes, passou-se por gigante anão, entrando para uma trupe de circo. Um dia, ao apresentarem-se na mansão de um nobre, escondeu-se debaixo da mesa do banquete. Depois de terminadas as festividades, fugiu levando toda a prataria, que era de ouro, cada faca do tamanho de uma espada.

Tentou passar-se por anão gigante no reino dos anões, porém foi desmascarado pela escassez de barba e a falta de chifres em seu capacete. Para evitar seu linchamento, o herói teve de desfazer-se de sua pequena fortuna em talheres gigantes, dinheiro e muitos outros bens, cruzando a fronteira apenas com a roupa do próprio corpo e o cajado, que por ser de madeira não despertara a cobiça dos pequeninos.

Chegou ao cúmulo de trabalhar honestamente por um ou dois meses, antes de fugir levando consigo todo o conteúdo dos cofres e da caixa registradora. No principado dos Triclopes, fingiu-se de bardo caolho, usando um tapa-olho na testa. Utilizando-se de suas habilidades na conversa, logo caiu nas graças do grão-vizir e passou a freqüentar a corte. Por 3 semanas foi tratado a pão-de-ló e aprendeu a se misturar à fidalguia.

No 21º dia, ao enxugar o suor da testa após um jogo de pólo, constataram que o bardo nunca tivera um terceiro olho.O alarme foi dado, mas Anaximandro saiu em carreira desabalada com o alazão. Os triclopes, é claro, possuem visão aguçadíssima, e foram difíceis de despistar. A fuga durou 3 dias, terminando com Anaximandro cansado porém ileso, tendo deixado atrás de si toda a cavalaria do grão-vizir, agora sob a forma de potes de palmito e cabelos avulsos de playmobil.

Atente, caro leitor, como Anaximandro sempre se sai intacto das mais terríveis agruras. Parece ter recebido um beijo dos deuses. Pergunte aos deuses, porém, e eles lhe jurarão que jamais poriam os lábios em criatura tão asquerosa. O demônio, à mesma pergunta, responde, corado, que são apenas bons amigos.

Seja como for, neste momento encontramos Anaximandro com aparência esplêndida, roupas de nobre e um belo cavalo, além do suor de 3 dias (o cheiro forte, assim como o sangue azul, era considerado um sinal de nobreza). Seguia tranqüilo, devorando um saco de baconzitos que antigamente respondia pelo nome de Heitor, o Sagaz. Foi quando ouviu o som de choro feminino.

Na beira do precipício encontrou uma mui adornada carruagem, de onde emanavam os lamentos.Dentro dela encontrava-se uma esplendorosa donzela, cuja aparência arrebatou Anaximandro de imediato. E não somente por ter o mesmo número de olhos e membros nem por ter a mesma estatura do que ele. Ela era, de fato, um belo espécime humano.Utilizando-se de toda a sua recém adquirida fidalguia, o mancebo disse:

– Saudações, ó virtuosíssima donzela. Qual desafortunado malogro faz correr tão formosas lágrimas?

– Ah, meu nobre senhor…é tão penosa a minha sina! Todo ano, neste reino, escolhe-se a mais bela virgem para que seja sacrificada ao dragão. Assim evitamos que o monstro incendeie nossas casas e arruíne as colheitas. Este ano, o tributo a ser pago sou eu.

– Mas é escabroso! Porque não foge?

– Não posso. Se irarmos a criatura, morrerei da mesma forma, por fogo ou por fome.

– Talvez eu possa enfrentar tal infame monstruosidade. Veja, possuo um bastão mágico – e, com um gesto, transformou uma árvore próxima em um panda – e você pode fugir com a carruagem enquanto o faço, cara princesa.

– Oh, meu senhor! Sou apenas uma pobre camponesa. Obrigado, mas o dragão é deveras veloz e rapidamente me alcançará. Não há remédio para mim.

– Mas espere! Ele interessa-se somente por virgens, não?

E dito isso, o estimado leitor pode imaginar que rumo tomou o resto do plano. Anaximandro atrelou seu cavalo à carruagem, e entrou nela. Divertiu-se com a moça de forma bastante proveitosa, mas com um sórdido detalhe: utilizou-se do buraco mais atrás. A inocente donzela, que nada sabia sobre estas coisas (não era costume naquele reino que as mães contassem às filhas a história da espada e da bainha), acreditou que tudo se passara segundo o plano.

Ouviram um ruído vindo do desfiladeiro, e a moça espiou pela janela do veículo. O monstro vinha buscar seu tributo. Anaximandro aproveitou para empurrá-la janela afora, tomou as rédeas dos animais e fê-los correr o máximo que podia na base do chicote.

A pobre camponesa, aflita, tentou correr, mas estava seminua e de salto-alto. Desejou com todas as forças que os tênis de corrida existissem. Viu o grande lagarto emergir das profundezas. Viu-o devorar o panda (que era mais virgem que a moça, que é como os pandas geralmente preferem permanecer). Viu suas amídalas. Depois não viu mais nada.

 

 

despedidas

ME DEIXA SOZINHA
me deixa sozinha, vá?
que já tô cum raiva de você aqui comigo
ah, vá catar batatas!
pentear coquinhos!
plantar macacos!
xô!
quer saber? me dá um chute no estômago
de uma vez
mas
vê se não me fala nada
e não me encoste a mão
não chegue aqui pertinho
não tente me ajudar
Pode guardar
esse seu lencinho
bordado pelas freirinhas cegas
do mississipi-missouri

Vamos lá, bata a porta.
Mas
não venha me perguntar
se preciso de alguma coisa
especialmente
se for um copo de aguinha com açúcar.
e não venha me dizer que não tem importância
e PELAMORDEDEUS
não me olhe com esses olhinhos molhados

Quero ver é você me atirar um sapato
Quero ver é você desviar
um último olhar atravessado

que eu só quero te ver pelas costas
antes de enxugar as bochechas
com as costas da mão

bile the kid

E fez-se o dia seguinte. Não como se pensa geralmente, na virada da noite, mas em plena 11 e meia da manhã. (Por que os dias se fazem quando acordamos.) E era outro dia, após 4 horas de sono intranquilo.

E era de fato um dia seguinte, nada mais que um dia seguinte. Por que o dia seguinte, na verdade, não é um dia. É só uma continuação, uma consequencia de um dia de verdade. E assim foi.

Levantou-se para ver se mais alguém estava acordado naquela casa que não era sua. Fez xixi. Passeou na sala. Avaliou os estragos. A boca com a consistência inconfundível de pós-bebedeira. Tentou ler um livro que trazia na mochila. Dava enjôo, letrinhas demais. Resolveu beber um copo d´água, e daí foi inevitável.

A salivação anormal delatou o segundo exato de sair correndo. No banheiro, ficou maravilhada ao descobrir que tinha o que por pra fora. Não se lembrava daquela meia esfiha comida há apenas 4 horas. Tanto faz. Melhor que bile. “Um poema escrito em bile”. É o nome de um capítulo de um livro. Acabou de emprestar pra dona da casa.

Sentou em cama alheia e esperou a náusea passar. Mas a náusea pode ser uma entidade deveras insistente. Encontrou outro livro. Menos letrinhas, figuras grandes. A amiga e o namorado acordaram. Empurrou um café da manhã goela abaixo. o estomago o empurrou goela acima. E afora, mas até lá já tinha chegado ao banheiro.

Ia se virando do avesso, e, nos intervalos lia O Pequeno Principe. Um Poema Escrito em Bile. Daria um belo conto. Poético e bizarro. Talvez não seja este.