Anaximandro, o Falastrão parte 2: just do it.

Passaram-se alguns anos. Um ou dois apenas, durante os quais Anaximandro vagou por diversos reinos e protagonizou incontáveis aventuras. Não caberão aqui todas elas, mas podemos citar algumas das menos usuais.

No reino dos gigantes, passou-se por gigante anão, entrando para uma trupe de circo. Um dia, ao apresentarem-se na mansão de um nobre, escondeu-se debaixo da mesa do banquete. Depois de terminadas as festividades, fugiu levando toda a prataria, que era de ouro, cada faca do tamanho de uma espada.

Tentou passar-se por anão gigante no reino dos anões, porém foi desmascarado pela escassez de barba e a falta de chifres em seu capacete. Para evitar seu linchamento, o herói teve de desfazer-se de sua pequena fortuna em talheres gigantes, dinheiro e muitos outros bens, cruzando a fronteira apenas com a roupa do próprio corpo e o cajado, que por ser de madeira não despertara a cobiça dos pequeninos.

Chegou ao cúmulo de trabalhar honestamente por um ou dois meses, antes de fugir levando consigo todo o conteúdo dos cofres e da caixa registradora. No principado dos Triclopes, fingiu-se de bardo caolho, usando um tapa-olho na testa. Utilizando-se de suas habilidades na conversa, logo caiu nas graças do grão-vizir e passou a freqüentar a corte. Por 3 semanas foi tratado a pão-de-ló e aprendeu a se misturar à fidalguia.

No 21º dia, ao enxugar o suor da testa após um jogo de pólo, constataram que o bardo nunca tivera um terceiro olho.O alarme foi dado, mas Anaximandro saiu em carreira desabalada com o alazão. Os triclopes, é claro, possuem visão aguçadíssima, e foram difíceis de despistar. A fuga durou 3 dias, terminando com Anaximandro cansado porém ileso, tendo deixado atrás de si toda a cavalaria do grão-vizir, agora sob a forma de potes de palmito e cabelos avulsos de playmobil.

Atente, caro leitor, como Anaximandro sempre se sai intacto das mais terríveis agruras. Parece ter recebido um beijo dos deuses. Pergunte aos deuses, porém, e eles lhe jurarão que jamais poriam os lábios em criatura tão asquerosa. O demônio, à mesma pergunta, responde, corado, que são apenas bons amigos.

Seja como for, neste momento encontramos Anaximandro com aparência esplêndida, roupas de nobre e um belo cavalo, além do suor de 3 dias (o cheiro forte, assim como o sangue azul, era considerado um sinal de nobreza). Seguia tranqüilo, devorando um saco de baconzitos que antigamente respondia pelo nome de Heitor, o Sagaz. Foi quando ouviu o som de choro feminino.

Na beira do precipício encontrou uma mui adornada carruagem, de onde emanavam os lamentos.Dentro dela encontrava-se uma esplendorosa donzela, cuja aparência arrebatou Anaximandro de imediato. E não somente por ter o mesmo número de olhos e membros nem por ter a mesma estatura do que ele. Ela era, de fato, um belo espécime humano.Utilizando-se de toda a sua recém adquirida fidalguia, o mancebo disse:

– Saudações, ó virtuosíssima donzela. Qual desafortunado malogro faz correr tão formosas lágrimas?

– Ah, meu nobre senhor…é tão penosa a minha sina! Todo ano, neste reino, escolhe-se a mais bela virgem para que seja sacrificada ao dragão. Assim evitamos que o monstro incendeie nossas casas e arruíne as colheitas. Este ano, o tributo a ser pago sou eu.

– Mas é escabroso! Porque não foge?

– Não posso. Se irarmos a criatura, morrerei da mesma forma, por fogo ou por fome.

– Talvez eu possa enfrentar tal infame monstruosidade. Veja, possuo um bastão mágico – e, com um gesto, transformou uma árvore próxima em um panda – e você pode fugir com a carruagem enquanto o faço, cara princesa.

– Oh, meu senhor! Sou apenas uma pobre camponesa. Obrigado, mas o dragão é deveras veloz e rapidamente me alcançará. Não há remédio para mim.

– Mas espere! Ele interessa-se somente por virgens, não?

E dito isso, o estimado leitor pode imaginar que rumo tomou o resto do plano. Anaximandro atrelou seu cavalo à carruagem, e entrou nela. Divertiu-se com a moça de forma bastante proveitosa, mas com um sórdido detalhe: utilizou-se do buraco mais atrás. A inocente donzela, que nada sabia sobre estas coisas (não era costume naquele reino que as mães contassem às filhas a história da espada e da bainha), acreditou que tudo se passara segundo o plano.

Ouviram um ruído vindo do desfiladeiro, e a moça espiou pela janela do veículo. O monstro vinha buscar seu tributo. Anaximandro aproveitou para empurrá-la janela afora, tomou as rédeas dos animais e fê-los correr o máximo que podia na base do chicote.

A pobre camponesa, aflita, tentou correr, mas estava seminua e de salto-alto. Desejou com todas as forças que os tênis de corrida existissem. Viu o grande lagarto emergir das profundezas. Viu-o devorar o panda (que era mais virgem que a moça, que é como os pandas geralmente preferem permanecer). Viu suas amídalas. Depois não viu mais nada.

 

 

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