duas pátrias

As coisas andam estranhas. Na verdade sou eu que não ando muito bem.
Mais uma daquelas ondas que tenho de vez em quando. depressiva.
Mas não se preocupem, que é coisa cíclica que já estou acostumada a rechaçar
com revistas e chocolates
(se você me vir com sacolinhas cheias de quadrinhos e chocolates, seja uma boa pessoa e vá me dar um abraço)
Ainda assim, me parece que não tenho pra onde ir.
Sei o que fazer, mas há dias o repositor já não traz o novo estoque de vontades.
Adrenalina quase zero.
Endorfina quase zero.
Meu gráfico está a um passo de disparar o “piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii”
e eu queria ficar na cama pro resto da vida
atada ao meu cão da angústia.
Ninguém entende porque eu gosto mais do meu cachorro preto do que do marrom
(que é tão doce)
ele é como eu
ele se senta sozinho
e lambe as próprias patas
ele deita comigo
e lambe as minhas mãos
(ele tem raiva de colheres
e caça criaturas no quintal que ninguém mais vê)
ele dá à umidade do meu rosto um significado mais feliz.
Por isso.
Ah, às vezes eu acho que ninguém me entende.
(sei que é tolice de minha parte)
Mas, às vezes, parece que ninguém entenderia.
Exceto, talvez, a Juliana.
A Juliana sempre dá um jeito de entender.

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poema de brechó 141

poema escrito atrás de uma nota fiscal do Pão de Açúcar, num bar/brechó, por mim e pela Da Gaveta lá pelas 6 da tarde de ontem. Depois de algumas cervejas, por supuesto. tenho certeza que todos ficarão embevecidos com a delicadeza.

[balança a cabeça]

Os tomates pintados.

Os pássaros opacos.

Currupaco. Currupaco.

O papagaio amarelo gritava “Louro quer biscoito!”

Mas os biscoitos são coisas da vida e não do mundo.

As bolachas de chope de tomate são legais, mas são impermeáveis.

Elas são da vida e não do mundo.

Sempre.

Cláudia diz: “Acho que o significado do poema são coisas que estão aqui, mas não deveriam estar. Vamos pro árabe comer esfihas”.

Renata diz: “Fica aí. Toma mais uma cerveja. E falar sobre as coisas é coisa que não interessa a ninguém”.

Pareceria tão profundo se não fosse tão idiota.

“Idiota é tua mãe e não enche o saco” – disse o papagaio.

Cadê meu biscoito?

Obrigado e volte sempre.

echoes

Sentado no sofá grande e marrom, fazia absolutamente nada. O mundo girando cá a sua volta (há muito havia trocado a teoria heliocêntrica pela egocêntrica) e ele nem pra fazer um movimento de translação.
A música tocava, hipnótica, não havia nada que o distraísse, nem mesmo a cerveja gelada em sua mão. Os dedos dormentes de frio, inafastáveis da lata. Não eram apenas os dedos que estavam dormentes. Os olhos, perdidos. É fato sabido que quando os olhos se perdem é que seus donos estão à procura de coisas mais importantes.
A solidão, mais hipnótica que o som. Sabia onde estavam as pessoas mas não se importou em buscá-las. Viajava solo num casulo foguete, numa bolha, num momento extra-mundo.
Viajava pelos meandros de sua consciência. Já se perguntou por que o cérebro tem tantas dobrinhas? É um túnel, com curvas demais demais para se ver a luz. Ou o fim.
Se existe algo como entrar em alfa, sem dúvida era aquilo. Os pensamentos fervilhavam em torrente. Os sentidos absorviam tudo de forma tão sólida que o movimento era impossível.
E, dentro desse momento de fúria e lucidez, quando a música parava antes da próxima, pôde ouvir , mais alto, um dos pensamentos que desfiava.
Mais tarde, liberto do transe, seria tudo que conseguiria lembrar. Ali, naquele segundo, em um sofá marrom,ele se deu conta de que o mundo já não tinha capacidade de o magoar.

Prada, gaveta

Menina d´olho claro
que enxerga através da minha testa
bota meus pensamentos no bolso,
foge e faz a festa.

Moça de cabeça loira; ruiva; morena
com corte d´Uma Thurman; Paul McCartney; David Bowie
mantém a personalidade intacta
por mais mutante que a aparência soe.

Tranca as idéias na gaveta:
sabe que precisam dormir
pra voarem feito borboletas
na hora que a gaveta abrir.

***

da série homenagens.
e acho que seria uma hora perfeita pra você ir ler o blog dela.