echoes

Sentado no sofá grande e marrom, fazia absolutamente nada. O mundo girando cá a sua volta (há muito havia trocado a teoria heliocêntrica pela egocêntrica) e ele nem pra fazer um movimento de translação.
A música tocava, hipnótica, não havia nada que o distraísse, nem mesmo a cerveja gelada em sua mão. Os dedos dormentes de frio, inafastáveis da lata. Não eram apenas os dedos que estavam dormentes. Os olhos, perdidos. É fato sabido que quando os olhos se perdem é que seus donos estão à procura de coisas mais importantes.
A solidão, mais hipnótica que o som. Sabia onde estavam as pessoas mas não se importou em buscá-las. Viajava solo num casulo foguete, numa bolha, num momento extra-mundo.
Viajava pelos meandros de sua consciência. Já se perguntou por que o cérebro tem tantas dobrinhas? É um túnel, com curvas demais demais para se ver a luz. Ou o fim.
Se existe algo como entrar em alfa, sem dúvida era aquilo. Os pensamentos fervilhavam em torrente. Os sentidos absorviam tudo de forma tão sólida que o movimento era impossível.
E, dentro desse momento de fúria e lucidez, quando a música parava antes da próxima, pôde ouvir , mais alto, um dos pensamentos que desfiava.
Mais tarde, liberto do transe, seria tudo que conseguiria lembrar. Ali, naquele segundo, em um sofá marrom,ele se deu conta de que o mundo já não tinha capacidade de o magoar.

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