pequenice

Para J. e o pequeno buda que mora em seu bolso.

Ela tinha só 10 anos quando aconteceu. Pequena Carlota. Querida Carlota. Ela tinha os cabelos escorridos e pretos com aquela franjinha que toda mãe obriga a filha a ter, tinha feições miúdas, concentradas no centro do rosto, como se os olhos, o nariz e a boca estivessem agarrados pra fugir do frio. O queixo triangular e atrevido.
Tinha só 10 anos quando percebeu. Quando descobriu. Quando um dia, de repente, ela foi a única que viu, um pequeno deus escondido e dourado e que morava na garagem dela, entre a casa de bonecas e a bicicleta, no armário velho que ninguém usava. Soube na hora que não era bicho: não teve medo dela. Há quanto tempo tempo ele tinha estado lá? Dourado e tranquilo, observando as aranhas fazerem suas teias.
Tomou a dividade sob sua responsabilidade. Levava-lhe todo dia uma gamela de néctar e de ambrosia, que são os alimentos dos deuses, como ela sabia. Na verdade, levava suco e doce de leite, mas chamava-os de néctar e ambrosia, e assim funcionava o suficiente. Às quintas, lhe acendia um incenso.Ficava orgulhosa. Dizia ao armário: “você tem sorte. eu te trato feito um rei” daí ria-se ” feito um deus!”. O outro só calava.
Um dia, um sábado, nada havia pra fazer. Carlota sentou na garagem, brincando de boneca. Percebeu que a encaravam do armário.
– quer brincar?
– sou uma divindade. não brinco com bonecas. brinco com gente.
-bonecas são mais divertidas. e depois, nunca vi você brincando com gente.Nem com coisa nenhuma. Você é deus do quê? dos armários?
-Sou um deus-sol.
– você não brilha.
– eu não disse que sou O sol.Eu sou um deus-sol.
– E o que você faz?
-eu represento o sol.
-pra quê? o sol representa o sol. ele não precisa de você.
-eu sei.
-por isso o armário?
-é.
-… . Você tem nome?
– não.
– você tem poderes?
-não. eu só tenho esse armário.
E passou o sábado. Carlota passou a debater com sua representação de sol. Parou de trazer doce de leite. Ele não precisava. Mas sentava e conversava com ele por horas, falando sobre botas e joaninhas e sobre a chuva e sobre brincar de amarelinha.Um dia disse:
– deusinho? você quer outro incenso?
– não quero não. na verdade, nunca gostei muito do cheiro. (carlota ficou decepcionadíssima)
– ah, é? e você gosta do quê?
-de crença.
-… . mas eu sou a única que acredita em você.
– pra mim tá bom.
– não sei. papai falou que fé é quando você acredita sem precisar ver. E eu te vejo. Assim não não vale…
E o sol do armário calou e lembrou de um templo 300 metros abaixo do chão e que dizia em hieroglifos indecifráveis sobre um deus-sol sem nome que era tão brilhante que ninguém podia ver. E ele sabia que ela acreditava nele antes mesmo dele aparecer. E ele sorriu e ia lhe dizer ” Mas não é todo mundo que pode ver o sol nos armários”, só que quando abriu a boca ela já estava no quintal observando uma joaninha amarela. A pequena Carlota. Querida Carlota. Então, ele fechou as portas do armário e foi dormir.

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