retrato em preto e branco

As paredes ainda têm gosto de cal. Se meus cabelos ficarem brancos, é que voltaram à cor original.
Falsas oferendas para falsos deuses. Pobres flores.
Pobre dela. A gangorra não sobe nem desce, está sempre em equilíbrio.
Naquela época lhe encantaria qualquer coisa que eu dissesse.
Naquela época, o sol subia, implacável, dotando a brancura de pequenas ilhas. Constelações nadando no creme das nossas peles. Melanoma basal.
“com esse maiô, você parece uma frutinha” mas o maiô era preto.
Minhas lembranças mais tenras usam bóias de braço. Bom que não se afogam.
Vovô nos levava ao parque da água preta. Eu pregava botões em panos brancos.
Tudo me parece agora
figurinhas autocolantes de fauna e flora
cartazes de cartolina e aquele livro das fadas, dos animais de nuvem e dos oito horizontes.
Eu ria toda vez que ouvia palavrão.
Ela se chamava marina e me achava linda. Um dia enjoei dela e disse que o passarinho de massinha representava nossa amizade, com a maior esperança de que o material frágil se desfigurasse. As unhas do pé do pai dela eram pretas.
Naquelas férias eu quebrei o braço num brinquedo do parquinho e não conseguia dividir as frações, não podia segurar a régua.
Não doeu. Tirar o gesso faz cosquinhas, o braço fino e empoado, todo maquiado pra receber mais uma vez a luz do dia.
Decepções maiores, só depois. Mas sem lágrimas.
Eu odeio chorar em público.


ah. me resenharam 🙂
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Uma maluquice idiota e cheia de palavrão (depois não digam q eu não avisei)

Ele e o chão. Ele e os barbitúricos. O vaso sanitário de tampas
levantadas vigiava tudo, soturno e acolhedor.
“Venha”, ele dizia ,”venha comigo que te mostro o outro lado da historia”, o vaso dizia.
Hans ouviu mas continuou encarando os arabescos dos azulejos. Não era
de bom tom conversar com privadas, por mais anestesiado que você
esteja. “Venha, vamos. Minha água é limpinha e azul.” concentrou-se
nos azulejos. Uma meia lua, uma bordinha decorada. Uma florzinha em
cada canto. Eram todos iguais. Passou os dedos pela argamassa que os
unia e aparecia em filetes, áspera. Passou as unhas pelas bordas de um
dos quadrados, mas como este não fazia menção de se soltar do piso,
voltou o olhar para cima.
” Não me ignore. você sabe que eu estou aqui. Eu também sou feito de
louça, sabe?” o vaso disse, sedutor. No teto, duas lâmpadas, daquelas
fluorescentes. Encarou, depois fechou os olhos e observou as sombras
das luzes dançarem nas pálpebras baixadas, provando que os olhos não
precisam estar abertos para ver. ” O que você quer de mim, herr sanitário?
Diga logo ou deixe-me em paz.” ” Não sei. Companhia. Uma boa conversa.
Quem sabe até um carinho?” ” Carinho não. Sabe lá deus quem andou
sentando em você.” “preconceituoso” ” vaso de merda” ” drogado de
merda” ” calaboca” ” vem calar”.
Hans acariciou os cadarços dos sapatos. ” covarde. fica aí com teus
sapatinhos” ” calaboca”
” ai, eu tenho sapatinhos. meu nome é hans e
eu adooro meus sapatiiinhos…” Hans fechou as tampas do vaso com
violência, e se aboletou por cima dele. ” toma essa, ô porcelana” “ficou bravinho que eu ofendi seus sapatinhos, foi?” As privadas não
precisam estar destampadas para falar. ” ok. Tá bom então. Qual o
“,0] ); D([“ce”]); //–>grande problema com o meu sapato?” ” nenhum, ´magina…” ” não, vai.
Pode falar” ” ah, e quem sou eu pra criticar o calçado alheio?” ” uma
privada de banheiro público. Caso você não lembre.” ” tá bom. Quer
saber qual o problema com teu sapato?” “vai fundo” ” ele é um imbecil”
” como assim , um imbecil?” ” imbecil. Um sapato imbecil. Sabe?
BURRO. Teu sapato é BURRO. Se você tivesse se drogado o suficiente pra
ouvir o que ELE diz, você ia saber do que eu estou falando.” ” é ,
pensando bem ele não tem cara de ser muito esperto mesmo…vai sapato,
diz uma merda pro Sr. Sanitário aqui!” e esfregava os tênis na
porcelana. ” pára com isso, pô!” Hans ria desbragadamente. ” Pára!
Pára!” A descarga disparou e não queria parar mais, hans levantou do
vaso: ” você está bem?” a voz de dentro da porcelana saia num
gargarejo. Hans encontrou um jarro de água sanitária e despejou,
trôpego, no redemoinho.O gargarejo aumentou, a descarga continuava
ecoando e então parou. ” sanitário? sanitário?” nada. ” Sanitário,
fala comigo!!” ele à beira das lágrimas, mas nada. As luzes
fluorescentes ainda brilhavam, e sob elas piscavam as ilhoses dos
Tênis, malignamente.

(seria tolo pôr um título neste daqui)

Planavam no ar, como como se alguém houvesse aberto uma pasta de papéis da janela do décimo andar. Planavam no ar, preguiçosas, e cortavam de leve minha pele, antes de tocar no chão. Aquelas angústias. Ela escutou meus passos e emergiu de um arbusto de azaléias. Lábios pintados de um tom forte, cor de uva, e os joelhos sujos de terra como quem, preparada para sair, sentira uma necessidade determinante de arrancar as ervas daninhas. Uma combinação inusitada. Sempre fôra.Toda ela, uma combinação inusitada.Bikini com capa de chuva, feijão com amendoim. Meio boa, meio ruim.
Ela enxugou o suor da testa e, entrando em casa, disse “vem”. Saindo do ar iluminado, a casa parecia toda preta.”Água?” ” Por favor”. Os móveis pesados e marrons entraram em foco e eu bufei de calor, arregaçando as mangas da camisa. Lá vinha ela, um guarda-chuvinha dançando tolamente no copo d´água. Agradeci.
O mundo de Loretta é regido pelas leis mais improváveis. Ela só pode cantar quando dorme e só pode dormir quando deita e só deita quando se entristece. Ela sempre canta chorando. Ela sempre chora cantando, e nem o sabe, e nem o sabe… o mundo de Loretta é regido pelas leis mais cruéis. Ela só pode amar homens chamados Raul. Disso ela sabe. Ela só consegue amar Rauls, e eu tinha que me chamar Aurélio.
Loretta, Loretta. ” Te trouxe um presente”, e dei a ela uma caixinha de doce de abacaxi. Cheia de amargura, mas ela não percebeu. Era uma despedida, e ela não percebeu. Eu agonizava ali, e ela… ela comeu um dos docinhos, o açúcar de confeiteiro aderindo ao batom. Comeu tão sincera que eu até parei de doer um pouquinho. ” está gostoso?” Ela respondeu com uma risadinha que levantou uma nuvem de açúcar. Acho que foi um sim.
O silêncio depois foi constrangedor e endurecido. Disse alguma coisa a respeito das tulipas no jardim. Estão bonitas. O guarda-chuvinha abria e fechava de verdade, eu o rolava entre os dedos. Levantei os olhos e me queimei nos dela, do outro lado da mesa, tão fixos em mim, meu coração até se atrapalhando na ordem das batidas. Mas acontece que não. Acontece que eu me chamo Aurélio.
” o quê foi?”ela. ” nada, só estava pensando umas coisas” eu. “ah.” E eu estava mesmo. Em como tudo é absurdo. Sabe. O problema não é a gente se quebrar. O problema não é a gente ter que se montar de volta. O problema é o quanto a gente se corta com os próprios cacos. Ela veio e passou os dedos no meu cabelo. Só que eu me chamo Aurélio. Por isso eu agradeci por tudo e disse tchau.
Só que não cheguei a levantar por quê ela sentou no meu colo, lambeu o dedo indicador e o encostou na minha testa. ” Pronto. Agora teu nome é Raul”.

ainda é dia 12

A chuvinha tamborilava
os ecos enchendo
o oco da casa
gotas tolas
não precisavam me chamar
elas estavam onde eu estava

A chuvinha tamborilava
os ecos enchendo
os ocos da alma
gotas gentis
a água que corre
é a água que lava

A chuvinha tamborilava
os ecos enchendo
os olhos da cara
gotas queridas
eu quase as amo
como eu o amava.

Stella was a diver and she was always down

Assim, sem mais, sem convite, sem nada, as Fúrias apareceram para jantar. Tocaram a campainha e veio à porta uma Estela descabelada e de pantufas, uma Estela aturdida de um fim de tarde de domingo.

“Já lhe ocorreu” disse a primeira das Fúrias, amanteigando um pãozinho “que talvez ela seja simplesmente melhor do que você?”. Estela trazia uma bandeja com azeitonas e queijos em palitinhos, pousou-a sobre a mesa: “Mais freqüentemente do que eu gostaria”. “ O que você gostaria não vêm ao caso, pequena. E mesmo se viesse não faria diferença. Me passe o guardanapo, querida.” A segunda Fúria se servira de uma azeitona e agora partia o palito em pedacinhos. “ Ora, não seja desagradável, maninha. Estela não tem culpa de ser medíocre. E, quem sabe?, se ela se esforçar bastante pode até ser boa em alguma coisa algum dia…” E com uma minúcia irritante, transformou a pilha de palitos numa minúscula torre Eiffel.

A terceira Fúria insistia que queria um Bloody Mary, mas não havia suco de tomate na casa.
“Não prefere uma caipirinha?” “ Que desfeita! Você sabe muito bem que eu só tomo Bloody Marys!” até que a primeira Fúria interviu e com um gesto aborrecido transformou um copo d´água num Bloody Mary e o ruído arrefeceu. “O que vamos jantar?” , arriscou Fúria dois.

Tinha um frango no forno e ele estava pronto. Batatas também. Sorvete de sobremesa.
“Acha mesmo que deveria estar comendo essas coisas?”. Pantufas se arrastaram até a cozinha e Estela começou a destrinchar o frango. Manuseava a faca com tanta satisfação que pela primeira vez na morte o frango ficou feliz por não estar vivo. Alguma voz vinda da sala de jantar lhe dizia que Estela deveria ter aprendido a bordar, isso sim era coisa de menina direita e me dê outro Bloody Mary. Ou algo assim. Daí ela se lembrou, sorriu e carregou na bandeja os despojos mortais da ave com batatas, sendo recebida em sua entrada triunfante com um “parece meio seco” e um “que droga, achei que íamos comer peixe”.

Comeu silenciosa, impermeável aos “Fulana sabe fazer Cordon Bleu”s e “você chama isso de batata?”s. Então disse, como quem não quer nada: “Puxa vida, não está na hora da novela?” As três Fúrias se entreolharam aturdidas, cruzaram os talheres, agradeceram muito por tudo mas é que elas tinham que ir indo, tinham que ir indo, porque pode chover e pegaram uma sombrinha de dentro do armário de toalhas e sumiram porta afora. Estela recolheu a louça e se serviu de uma cumbuca de sorvete. Podia não saber de muita coisa, mas de uma coisa ela sabia. Fúrias são feitas da mesma matéria que as tias-avós.