O melhor mendigo do mundo

Para Lorde Pirilampo e as mesas do 2P

As pessoas se perguntam, muitas vezes, como as pessoas viram mendigos. Não é muito difícil, na verdade. Não é difícil não ter nada. Mais difícil é se virar com esse nada que você não tem. E disso Pipo logo se deu conta, quem sabe no mesmo dia que fugiu daquela casa que nem muita coisa tinha de um modo ou de outro.
Vagava pelas ruas com seu cobertor e seus 17 anos, pedia um trocado a quem passava a quem dirigia, mas ganhava nada, quase nada. Encontrou logo um grupo de outros esfarrapados com quem dormir e conversar e que lhe emprestavam umas moedas e caixas de papelão boas de se dormir. Mas passavam os dias e Pipo não rendia nada em suas excursões como pedinte. Os outros , ao contrário, ganhavam ao menos o suficiente para o pão, às vezes uma cachacinha num dia bom.
Por fim, numa manhã enquanto todos saiam à procura de um bom ponto, o velho Gerânio seguiu Pipo. E observou.” Não, meu fio. Cê tá fazeno tudo errado. Nâo pode só saí aí pidino dinhêro pras pissôa…” “Cumassim, seu Gerânio? Tem um bucado de gente que faz isso…” “Não, minino. Num é assim qui funciona. Pidi sem oferecê nada im troca só dá certo si cê for alêjado ou tivé criança de colo.” ” Mais intão eu faço o quê?””Moço forte que nem você? Vô ti dizê uma coisa, a grana boa mesmo tá no setô de serviço.” “Sirviço?””É. Óia ali”. Naquela direção estavam uns garotos fazendo malabarismos, vendendo chiclete, limpando pára-brisa. “Serviço, Pipo. Tem qui oferecê alguma coisa pras pissôa.”
E então o garoto se aplicou em aprender a arte do malabarismo. Em duas semanas se virava com três bolinhas e foi testar o ramo dos serviços. Foi ao semáforo e upa, upa, upa!, três bolinhas no ar. Perfeito, agora é só fazer a colheita. Ninguém tinha moeda. No outro vermelho também não. Nem no outro. Desapontado, quis trocar de sinal. Na outra esquina, meninos com metade de sua idade faziam o mesmo truque. Na seguinte, um sujeito cuspia fogo. Não, seu Gerânio, o mercado de mendigos circenses já estava saturado, e era um show que a maior parte das pessoas não estava disposta a pagarpra ver.
Tentou vender doces, mas o mundo todo entrou em dieta. Quis lavar pára-brisas e ali sim havia mercado. Outro dia viu um carro, sujíssimo, duas meninas dentro. Ele insistiu, mas elas não quiseram que ele lavasse de jeito nenhum, apesar das indecências escritas a dedo nas janelas do carro. Acabou lavando de graça. A maioria das pessoas não se importava com a sujeira. Afinal, de vez em quando chove.
Era como se as pessoas apenas não precisassem do que ele oferecia. Mas então o que ele podia dar a elas? O que elas podiam querer de alguém como ele?Nada. Nada. E daí veio o estalo. Ele acendeu um cigarro andou seguro até a janela de um opala preto, com um senhor de camisa listrada atrás do volante. Abaixaram o vidro. “Prá eu te comê é um real.” ” O quê? sai!” ” Prá num comê é dez…”
Depois desse dia, nunca mais faltou cachaça.

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