realidade absurda (2)

A
Descabelada e de camisolão, eu parecia paciente de algum sanatório.Minha vó veio em casa e eu sai com ela e mamãe para comprar tulipas para um abajur. Na volta, paramos na dulca, para um café. Eu pedi um Iced Coffee, mas o que veio foi um café com sorvete de creme. Animador. Tiro os brincos de pressão, que estavam machucando a orelha.
– Mã.
– Oi?
– Se eu tivesse dois brincos de bolinha amarela no lugar dos olhos você ainda me amaria?
– Quê?
Pus os brincos entre os olhos e os óculos pra ilustrar.
– Você me amaria se eu tivesse brincos de bolinha amarela no lugar dos olhos?
– Claro que amaria.
– … mentirosa.

B
Quarta-feira. Banca de jornais. Um velhinho muito idoso, cabelo cacheado e branco. A princípio nem dava pra ver se era homem ou mulher. Ele pegou uma revista pornô e perguntou pra moça no caixa:
– Essas daqui saem muito?
– Ah, saem sim.
– E essas?
– Também…
– Nossa, mas tem tantas.
– Pois é.
– …
– …
– Você gosta mais de sexo ou de feijoada?

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curtelhas

Felicidade assim é um prato raro.
Que seja.
Eu vou comê-lo com a maior colher que eu puder encontrar.

Janelas
Era um sonho ninado em seus cabelos macios.
E só.
Era o cheiro de flor quase imaginário que exalava do seu travesseiro.
E só.
Era, de novo e de novo, minha solidão ao acordar.
E sol.


Alma sã e corpo são.
(e, de preferência, a primeira dentro do segundo)

Mil maldições malditas.
Se fossem poucas,
talvez fossem bonitas.

.realidade absurda (1)

(prólogo) Pois bem. Eu estou para estrear essa seção faz um tempo, então lá vai. Realidade absurda são aquelas coisas que te acontecem de verdade, mas que você faria muito bem em acreditar que não aconteceram coisíssima nenhuma. Claro que nem são tão irreais, porque, afinal de contas, elas aconteceram. Mas você nunca suspeitou que elas pudessem. Ou então, sou só eu inventando umas historinhas bobas e enganando todos vocês. Tolinhos. (fim do prólogo)

Essa aqui aconteceu quando eu ainda estava no meu emprego2. Como eu trabalhava num daqueles lugares onde judas costuma esquecer as peças de roupa, era preciso andar 20 minutos, pegar trem, pegar ponte orca ou ( p.orca, como eu gosto de chamá-la), pegar metrô, baldear, essa aventura toda. Durante esses percursos, claro, muitas pessoas tiram da mochila um livro, pra passar o tempo. Eu não, por duas razões distintas: número um, sentar sem fazer nada num meio de transporte público é um dos momentos de pico pra mim, criativamente falando. Número dois, ler em movimento me dá tontura. Mas estou acostumada a ver gente lendo nessas situações. Naquele dia, reparei numa moça, no trem. Ela carregava nos braços não um, mas dois livros nos braços, fora da bolsa. E depois, quando fui tomar a P.orca, ela sentou do meu lado. Espiei. Os dois livros eram de ficção. Não eram de faculdade nem nada do tipo. Aliás, eram daqueles do estilo Best Seller. Fiquei me corroendo. Pergunto ou não pergunto por que raios aquela criatura levava DOIS livros? Dá pra entender alguém que leia dois livros ao mesmo tempo, agora, levar os dois pra ler no trem parece um pouco de mais. Pensei comigo: eu nunca mais vou encontrar essa moça na minha vida. Se eu não perguntar agora, não vou saber nunca. Tomei coragem e interrompi a leitura dela.
– Oi, desculpa incomodar…
– ´Magina
– … mas eu estava me perguntando: porque você carrega dois livros?
– Ah. (sorriso) É que eu leio um na ida e outro na volta.

amadores

De roupa, na água, eu brincava de Ofélia. Ofélia na sua fase louca, boiando na água entre as pequeninas flores amarelas que caíam na piscina suja. Era meu aniversário, por isso o mergulho forçado, o vestido empapado flutuando feito cabelo de sereia. Não puderam me convencer a sair de lá. Não sem entrar. Vem menina, vem que tá frio… Vou não. Vem que a gente quer cortar o bolo. Vou não. Vou ficar aqui sozinha, furando com os dedos a película d´água. Apaguei as velinhas jogando pra cima uns espirros d´água, a mão em concha. Umas florzinhas no bolo, comam à vontade. Eu rasgava um chapeuzinho de papelão já mole, quando ele entrou na piscina, calça jeans e tudo, a água subindo pelas fibras da roupa mais rápido do que ele submergia. Círculos concêntricos. Toquei com os pés o chão de azulejo. Abaixo do céu cinzento, abaixo da sujeira e das flores, abaixo da linha d´água, ele segurou minha mão.