trocado

As esquinas estão cheias de criancinhas gordas.

As esquinas estão cheias de criancinhas gordas.

As esquinas estão cheias de criancinhas gordas.

As esquinas estão cheias de criancinhas gordas As esquinas estão cheias de criancinhas gordas As esquinas estão cheias de criancinhas gordas As esquinas estão cheias de criancinhasgordasesquinastãocheiasdecriancinhasgordasquinastãocheiasdecriancinhasgordas.

De tanto comer as balas que não conseguem vender.

Las aventuras de la pequeña niña,

Pietra rissolez

Pietra gosta de comer ovos

Quando estão ainda moles

Pietra ri, sòla

Pieta ri, Pietra chora.

(Pietra brinca de badminton

com meias sujas se fingindo de bola)

E também escreve cartas, a pequena Pietra

(Embora contenha cada uma

não mais que uma letra)

 

Pietra ri soles

Pietra encara o sol

E cora

(pequena Pietra esmagada

sob tua sola)

La pequetita Pietra Rissolez

Pietra, ri.

Não chores.

Pietra leva ao peito as coisas que adora

Pietra ri

E isola.

encontro

 em parceria com Nélson, o das uvas.

Traga a carta de vinhos
minha companhia alonga-se na demora

meu relógio e eu, sozinho

os minutos passam e as flores murcham

aquilo corroendo as paredes, eu sei, é o tempo

das paredes ulcerosas brota a impaciência

nada chega.

Traga a carta de vinhos.

Chilenos, argentinos e brasileiros. Só. É um restaurante latino-americano?

Que seja.  traga um de rótulo bonito. Um que não tenha rolha.

Não há rótulos bonitos em latinoamérica. Só índios – disse-me o insolente maître.

Então me traga uma puta pra me fazer companhia.

Aqui não. Dois prédios à direita, sim?

Sim, certo. Então uma água, um camembert, uma taça de dignidade?

Servimos apenas estes vinhos. Espera de nós dignidade?

Silvinha chega enfim ao restaurante. Me encontra afundado entre o mâitre e as migalhinhas de pão. Estava conhecendo-a agora. E já não tinha uma boa impressão dela. Além de atrasada, estava feia. Parecia que havia saído de um salão de beleza enquanto ainda penteavam seu cabelo.

Ela amarrou a bolsa na cadeira e se sentou com um ruido abafado. Oi! Desculpa o atraso viu? é que rolaram uns imprevistos e… enfim! cheguei!

Olhei-a com escárnio. Como podia se atrasar tanto pro nosso primeiro encontro? Resolvi ser cruel.

– Hoje a conta é sua, baby.

Ela passou a mão no cabelo, e não respondeu se sim ou se não. Além de tudo devia ser avarenta. O vinho chegou. Era chileno. Tinha nome de santo.

 

Vamos conversar, pensei. Olhei para o vinho e fiz uma careta. Parecia péssimo. Era suave, ainda por cima.

          – Quais os imprevistos que enfrentou?

     – Ahn, bem. A… a minha mãe ligou pedindo pra buscar ela, porque… porque ela tinha sido assaltada.

Em outras palavras, ela passou tempo demais no banho e usou o secador pra construir aquele Frankenstein que ela chamava de penteado.

– Foi você quem fez esse penteado?

– Não… estive no salão antes de tudo isso. Gostou? – disse enquanto sorria e alisava a cabeleira loira

– Horrível.

O sorriso esvaiu rapidamente de sua face. O silêncio na mesa contrastava com o tilintar de garfos e derramar de líqüido nos copos das outras mesas. Bebia o vinho calmamente. Não estava tão ruim assim.

 

Eu ia estourar seu cartão de crédito, ela sabia disso.

 

Ela começou a parecer indignada, mas não sabia bem o que fazer. Torcia e destorcia o guardanapo no colo, fez que ia falar, não falou. Veio o mâitre: Já sabem o que vão pedir?

 

– Já sabemos, querida?

– Não, por que você não escolhe? – quis ser gentil. Sua gentileza iria lhe custar uns 500 reais.

– Primeiro, petit gateaux. Um pra cada. Depois, lagosta e paella. De acordo, amor?

O maître olhou meio assustado. Talvez por pedir uma sobremesa de entrada. Mas queria doce e não queria rodeios.

– Sim, Joseval… – assentiu resignada.

 

O maître saiu feliz.

Ela começou a me olhar com ódio. Era divertido ver a pálpebrazinha de baixo tremelicar. Quando o garçom trouxe os dois bolinhos de chocolate como entrada, ela já estava à beira das lágrimas.

 

Ela comeu. Pareceu um pouco melhor. Chocolate e mulheres, vá entender.

 

– Está gostando? Eu estou achando ótimo. Ah, roubaram o que de sua mãe? Ela está bem?

– Poderia ser melhor. Roubaram pouca coisa, só a bolsa. O problema são os documentos mesmo. A propósito, acho que não tenho dinheiro para pagar a conta toda. – tentou revidar.

– Nem eu. Também fui assaltado.

 

Choque.

 

– vamos cancelar os pedidos.

– Está louca? Estou morto de fome! Você tem idéia do quanto se atrasou?

– Eu te pago um cachorro quente lá fora! Não. Vou. Lavar. Pratos. Não vou. Ponto.

Ela levantou, foi atrás do mâitre. Pediu desculpas e a conta.

 

– Desculpe, senhora. Mas é norma da casa não cancelar pedidos de pratos que já foram preparados.

– MAS EU NÃO TENHO DINHEIRO! – gritou, chamando a atenção de todo o restaurante. Ainda por cima era indiscreta. Resolvi deixar o restaurante de fininho.

Passei pela porta giratória e pedi um táxi. Entrei e mandei o motorista acelerar.

 Ainda deu pra ver Silvinha correndo atrás atabalhoada, de salto alto, uivando um Filho da Puta!!!!!! assim, com diversas exclamações mesmo. É. Descabelada, avarenta e mal-educada. Desculpe Silvinha, mas eu e você… não era pra ser.

realidade absurda

 

Ok. Se existisse o prêmio Garçom de Boteco de Ouro eu já teria minha indicação na ponta da língua. Al-de-mir. Por exemplo, ontem mesmo fomos no 2P, o boteco sujo e acolhedor onde o Aldemir trabalha. Estacionamos o carro na esquina, e quando chegamos na calçada onde as mesas de plástico ficam, já encontramos a nossa mesa posta, a mesa de sempre, com a cerveja de sempre já aberta e ainda gelada e o número correto de copos. O número correto de copos! Não, não basta conhecer nosso carro, a marca de cerveja, a mesa favorita. O homem adivinha quantas pessoas vão em um carro de vidros fumê. Ou esse cara é o melhor garçom do mundo ou ele está desperdiçando a chance de ficar rico usando a mente pra dobrar colher…

***

Agora pouco, no msn:

– e depois diz que eu é que sou pouco confiável…

– pouco confiável é você, que cogita parar de beber!

-eu não cogito, eu vomito.

***

Sexta à noite. Depois do jantar. A porta do quintal aberta, pai e mãe começam a discutir.

– Marcos, deixa eu fechar a pota!

– Não, não. Depois eu fecho…

– E vai ficar assim, aberta?

– Eu fico aqui embaixo.

– Mas… pra quê…?

-…

– Você tá roubando água do vizinho de novo?

 

sim. Ele tava. ai, pai.

– Ele me deve! Daquela vez que ele me fez pagar um tanque pra ele.

– Mas agora já é outro vizinho!

– Não interessa. Quem deve é a casa.

poema estranho

Se escuta aqui

Que não é assim

Que não é nada assim

Que todo sofrer é ar cênico

Mas é .

Arsênico.

Que não é coisa temporária.

Mas é.

Água sanitária.

Que nem sempre a vida é curta

Mas é.

Cicuta,

Aqui.

 

Escuta aqui

 

Escuta esse último movimento

 

Porque dói.

 

Dói como veneno

lá dentro.

***

inspirado num versos desse cara aqui ( que tão, aliás, em um dos absintos).

o ” dói. dói como veneno lá dentro.” é dele, viu?