realidade absurda: o negão roludo

Quem aqui nunca ouviu falar no folclórico negão roludo? (ou rolão negudo, para os íntimos.) Muitos, provavelmente. Mas aqui está uma história real, porém antiga envolvendo esse célebre personagem.

Era aniversário da M. , grande amiga, ano passado. Fui de carona com uns amigos enrolados e por isso, quando cheguei, a aniversariante já estava pra lá de bagdá. Sabe como é, é seu aniversário, as pessoas fazem fila pra te pagar bebida, uma tequila, duas tequilas, bagdá.

Era um barzinho meio caro, daqueles bem apertados e com mesinhas na calçada, uma emendada na outra pra caber todo mundo. Ali, perto da coluna, uma caixa imensa, coberta com um pano preto. Pra sair da mesa e pegar bebida ou ir ao banheiro era preciso necessariamente passar por ela. É claro que, diante de tal artefato, os bêbados começam a fazer piadas:

– nossa, olha isso.

– que que eles guardam aí dentro?

  aposto como é um negão roludo.

– não. É o cara com o maior pau do mundo. Ele vai pular pra fora só de sunguinha na hora do parabéns!

A aniversariante passa, em direção ao banheiro.

– Olha, M.! Tem um presente pra você ali naquela caixa!

– oba! O que?

– É o homem com o maior pênis do mundo!!

Ela passa se esfregando na caixa. Risadas gerais.

Conversa vai, conversa vem, chega mais gente. Chega um casal. Nós muito sociais e solícitos logo explicamos:

 Ta vendo aquela caixa? O cara que ta lá dentro tem o maior pau do mundo.

A menina responde:

– Não tem não.

Dito isso, todos nós levantamos e parabenizamos o namorado dela. Aquele lá dentro da caixa só pode ser o vice.

memo

Lembranças? Não sei. Queria saber para onde as coisas vão quando a gente esquece. Tavam lá, na cabeça e puf. Somem. Bái-bái. É como ter larvas no cérebro, e elas se alimentam das coisas que acontecem com a gente. Será que evaporam, será que viram cera de ouvido? As coisas que eu não lembro. Vai ver elas se mudaram e foram viver nas memórias de outra pessoa. Todo mundo tem aquela lembrança esquisita de uma coisa que nunca fez. Uma lembrança imigrante. Talvez você tenha uma lembrança minha, em algum lugar.

Eu estava com soluços, você me assusta e os eventos se desgarram do rebanho, ovelhas brancas ou pretas que se embrenham na floresta pra nunca mais voltar. As larvas devoram o que me aconteceu e deixam dejetos nas curvas do cérebro, resquícios fantasmagóricos que me dão deja vues e me fazem pensar que já fiz isso ou aquilo e talvez eu tenha feito, mas a lembrança já não está lá.

E eu acho que a nossa cabeça foi feita de forma estúpida, a gente lembra uma coisa de cada vez, pensa uma coisa de cada vez e às vezes isso é uma merda. Porque quando eu lembro que você fez algo errado eu não lembro que você fez algo certo, e quando eu lembro que te odeio eu não lembro que te amo e nem porquê. Se tivessem feito a memória direito não era assim não. A gente pensa numa coisa e vêm o arquivo inteiro, cada memória, cada lembrança, cada morte, cada beijo, cada fita do senhor do Bonfim e com isso, aí sim, a gente ia ter uma visão real das coisas, do que vale a pena e todo mundo ia ser justo o tempo todo.

Onde é que as lembranças moram enquanto a gente está no agora?

Tenho certeza que a gente sabe.

Mas esquece.

blá, blá, blá

Te fazer um verso

É tudo que posso fazer por ti

Manter o coração imerso

Do ré mi fá sol lá si

 

E daí você vem me falar dos outros. Ora, os outros, eu quero é mais que eles vão pro espaço. Pensa, não seria nada mal, a gente ficava com este planetinha azul todinho pra gente, em março vamos morar no Chile, em outubro passear em Bruxelas, dia treze abrir cadeiras de praia e montar barracas abaixo das janelas. Certo, chega de babaquice. É que comigo é tudo assim feito de rompante e mal-acabado. Eu só sei querer de sopetão, e arregalar os olhos pra tudo. E foi no repente (mas há tanto tempo) que eu construí essa minha paliçada que ficou torta e que era pra me proteger de tudo, mas é que eu sou tão desastrada, dia sim dia não eu tropeço e me espeto no negócio. Daí que eu vi, aquilo lá me machuca mais do que qualquer coisa outra poderia e por isso que, agora, todo dia terminado em 3 eu me dirijo à cerquinha, arranco uma tora e uso pra acender a lareira e derreter um marshmellow num palito ou, se estiver calor, tomar do canivete e sentar na varanda pra me esculpir uma girafinha de brinquedo.

farrah falsett

Me dá um pouco de paz, eu te dou um pouco do meu desassossego

Nasci de uma mãe com mancha castanha no olho verde e esquerdo

E é por isso

Eu sou habitada por um cardume de criaturas cegas

Que comem morcegos

 

E é por isso que eu tenho tantos nomes

E nenhum deles é meu.

 

Cuidado com o nome que chama,

 

Você pode trazer os demônios à baila

E me diga

Você já

Dançou com o demônio

À luz do luar*

?

 

Porque às vezes eu sou ciano

E às vezes, cianureto

E às vezes eu sou pinóquio

E às vezes, gepeto

 

Porque às vezes eu sou nuvem de inverno e às vezes

eu sou o demônio de mãos pequenas

e caninos vermelhos.

 

Cuidado com o nome pelo qual me chama

Não convide os monstros pra montar

Cidades de lego

 

 

Porquê às vezes eu sou bambuzal

e às vezes,

sou prego.

 

E Cuidado com o modo que me chama

 

porque

 

Enquanto Samantha canta

 

Enquanto Eduarda guarda

 

Enquanto Sônia sonha,

 

Clara pára

Rita grita

Emma toma.

 

—-

* sim, essa frase é roubada do primeiro filme do batman… 😛