monólogo :sobre pintura:

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– Pois então. É só pegar qualquer livro daqueles, sobre artistas famosos, folheia um pouquinho. Duvido, DUVIDO que você não vá encontrar um peitinho desnudo, umas anquinhas, um mamilo… daí eu lembrei do meu irmão quando ele era (nem tanto) pequeno:

“o que você quer ser quando crescer, rafinha?” 

“fotógrafo da playboy!!”.

Taí. Saquei tudo. Antigamente o pessoal virava artista era pra ver mulé pelada.

– Ah, claro. Até parece. E todos aqueles caras que só pintavam natureza-morta?

– Nhá, esses aí não passam de um bando de fruta!

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a conta dos dias

1- Eu tenho medo de tudo isso.

2- Eu sou uma medusa fazendo tranças.

3- Raios caem sim duas vezes no mesmo lugar, e eu não sou uma árvore muito sortuda.

5- E eu sou tão burra que acho que tudo pode ser eu.

6- Chega que assim você me deixa triste.

7- Vai saber porquê, mas toda vez que eu ando sozinha de metrô acabo pedindo pra alguém casar comigo.

8- Mania de engolir a sorte antes de saber qual será.

10- Não importa quão bem se escreve, palavras continuam sendo só eufemismos da vida.

12- Seria menos perturbador se houvessem dúvidas a esse respeito.

13- Queria pra mim alguma outra coisa qualquer.

14- Queria deitar na minha cama, mas o espaço entre ela e o teto está repleto de toalhas.

15- Será que estou enganada? Porque eu ainda acho que as coisas serão maravilhosas enquanto eu achar que serão.

16- menos porres e mais títulos!

17- Sou de um ceticismo doloroso.

18- O impossível me agrada.

19- O meu problema sempre esteve nas operações inversas.

20- Há todo o resto. E depois, abruptamente, eu começo.

21- Há de se tomar cuidado para as palavras não envelhecerem dentro de si.

22- A gente passa a vida construindo pontes, sem que nos ocorra que pode ser agradável entrar no rio

24- E eu sempre li tantos livros velhos que só aos 17 anos descobri que se escreve “cotidiano” ao invés de “quôtidiano”.

25- Você sabe que não é verdade.

26- Eu sou assim/ porque fui desenhada/ por Dave McKean.

27- quantas vezes nos é permitido gostar da mesma pessoa?

28- Amor, minha filha,- diria uma negra veia- é um trabuco com 2 balas.

29- Se deus fosse a favor de tecnologia, umbigo era entrada USB.

30- Não me amola que eu não sou faca. Não me imola que eu não sou vaca.

31- Que pena. Eu gostava dele.

32- É que eu pontuo minhas frases com o seu nome.

33- A espera não dói. Só cansa.

34- As certezas mais estúpidas sobre as coisas mais inverossímeis.

35- Meio copo de cândida e um talo de aipo.

36- E é bom quando a gente menos espera.

37- Cada dia que vier será novo. Eu gosto quando ao menos o tempo passa.

38- Viver de acordo com a própria simbologia.

39- Não é depressão. É só uma vontade de chorar que não passa.

41- Pena, apenas.

42- Crise de bunda-molismo.

43- Ele é tão cavalheiro que até parece uma dama.

45- Úmido, como um dia cinzento quando na verdade deveria haver um temporal.

46- As abelhas zumbem: esqueceram a letra de suas canções.

47- De novo, de novo, de novo.

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do diário frasal de czarina
(maio 2006/maio 2007 e ligeiramente censurado)

viagem

para mirella, coração do mundo

Tinha 17 anos e fugia de casa. Levou uma mochila cheia e os dois cachorros, Janaína e Cocaína. Não sabia pra onde ia, apenas gastava os tênis novos enquanto pensava. É a coisa mais humana que existe. Andar. Lembranças de um nomadismo de antes de existirem os táxis e as cadeiras estofadas, quando tudo que se fazia era andar e andar. E pensar. A medida do quanto uma pessoa pensa está nas solas dos seus sapatos. Andou uns 40 minutos, entardecia, os cachorros volta e meia mijavam, volta e meia provocavam os cachorros dos outros quintais. Já era outro bairro, os ônibus que passavam tinham nomes desconhecidos. As cadelas arfavam, e agora o quê? Sentou numa padaria com mesinhas de plástico, e viu a novela passar na tv. Tomou um refrigerante e depois outro e depois outro. Comprou uma coxinha, e a partiu entre os cães que olhavam hipnóticos – é apenas pra isso que eles usam a força da mente. Assistiu à novela. Não aquela. Outra. E agora o quê?Deixou uns trocados na mesa da padaria. Levou a mochila. Levou os Cachorros. Deixou a menina. Tinha 18 anos e voltava pra casa.

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(ié)

Palavras palavras palavras

Tão elásticas

Escolho qualquer trecho

De qualquer livro

E todos servem

Como pares de calças de lycra

Todas as cores, estilos e comprimentos

Não há um só

Que não me tome como fôrma.

Um problema.

Porque estou tentando me encontrar

Nessas idéias

(que estupidez, como se eu pudesse meter a mão

Entre as almofadas de um sofá

E me puxar dali como uma moeda

Redonda e brilhante

E com a minha efígie cunhada)

Mas se qualquer uma delas

Me serve,

Nada me cai melhor em particular.

 

E eu sou burra o bastante pra achar que tudo é eu.