excreções (1) – saliva

Saliva, nunca me falte. Saliva para untar palavra com palavra, caldo primordial para brotarem as coisas que eu falo, detergente que brilhe e se solte tremelicante do aro dos lábios quando elas se desprendem e flutuam feito bolhas de sabão.

Saliva, nunca me falte. Para não engolir em seco.

Para dissolver o doce e fazer descer rápido o amargo, para cuspir em qualquer mau cidadão.

Para umedecer os lábios e fazer correr sem tropeçar os discursos.

Para pregar os selos nas cartas.

Para tirar manchas de caneta, para fazer as limpezas mais leves do rosto da pessoa amada.

Saliva, nunca me falte.

Para tingir o saibro antes da terceira bola, segundo strike.

Para os pequenos batismos do dia-a-dia, para relegar os restos de pasta de dente à pia.

Para mim e para quem quiser, para dar e vender, para encher piscinas e moringas.

Saliva para compartilhar como os viciados compartilham seringas.

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sim,

E eu notei que minha vida tinha uma direção de arte incrível, enquanto colocava um livro de capa amarela e grossa numa bolsa de couro roxo e vendo abrir as portas do vagão onde tocava muito alto música clássica, aquela do episódio do pica-pau. De repente, me pareceu que eu ia topar com uma pasta de couro preta, que gondry ia me tirar pra dançar, que vinte havaianas iam vir descendo pela escadaria, que ia chover (eca) alcaçuz, que eu ia virar a esquina e topar com o amor da minha vida.

Mas era só impressão.

realidade absurda: família

É, esse domingo eu fui num bris. Bris, pra quem não sabe, é o ritual judaico de circuncisão. O centro das atenções era um primo de terceiro grau. Acho. Sabe como é, é aquela parte da família que você não sabe muito bem quem é quem, quem é filho de quem, quem é casado com quem, porque você só vê umas 3 vezes por ano.

E no ano seguinte, continua não sabendo, claro.

 

No meu caso isso se agrava: são duas primas da minha mãe, gêmeas idênticas, que tem a casa uma do lado da outra, usam o cabelo igual e falam igual (nasceram na romênia). Tudo que eu sei é que uma é dentista e e outra trabalha na prefeitura, razão pela qual eu tive que apertar a mão do Cláudio Lembo. Foi um pouco como apertar um peixe morto. (imagino que tanta gente apertou a mão dele que quando chegou a minha vez, já não tinham sobrado ossos)

 

Enfim. Eu sempre fico um pouco ressentida por ser mulher e não poder usar a quipá. Meu primo, por outro lado, não queria colocar o chapeuzinho de jeito nenhum (nosso lado da família é batizado católico) e precisou de algum convencimento: Pô, a praia é de nudismo e você quer entrar vestido? Oras bolas.

 

A circuncisão em si eu vi de camarote. É sem anestesia mesmo, tudo que dão para a criança é um pouco de vinho koshër num pedaço de gaze. O menino nem chorou muito nem se mijou nem nada. É, os judeus já nascem durões. E depois, por algum motivo obscuro acabam virando o Woody Allen. Vai entender.

 

No fim, o rabino dá o nome pra criança (funciona como batismo, também), Bernard Ephrain ben Abraão (fiquem tranqüilos, o nome de verdade é mateus) e diz:

– Pronto. Quem é o próximo?

 

Ninguém se candidatou.

Vai entender…

 

(nota: da próxima vez que for jogar dinheiro na judia- estou falando de mim-, lembre-se que ela aceita notas de dez, oquei?)

 

 

Meu maninho está terminando a faculdade de medicina e por isso ainda não traz o toicinho pra casa. Esses dias meu pai estava às voltas com o IR.

 

– infelizmente, Rafa, na sua idade eu já não posso te declarar como dependente.

– putz, e agora?

– relaxa. Já te coloquei como deficiente.

 

 

Falando em deficiente, eu tenho um primo da minha idade (exatamente 26 dias mais velho) que até os 21 anos era normal e de repente… já não era.  

E não é que já aposentaram o menino e ele ganha 50% a mais do que eu todo mês?

Não sei porque eu me dou ao trabalho de sair de casa.

Eu nem sou tão normal assim.

walkman

Eu gosto quando de repente a música é boa o suficiente pra calar a boca da minha mente. Eu gosto quando o shuffle me traz de presente esse pára-tudo-e-escuta, esse autismozinho, essa ilha de paz. Eu gosto quando o surto finalmente pára por três minutos e 21 segundos. Quando o parafuso pára de espanar porque esqueceu porque estava girando. Eu gosto quando o consciente cantarola com o subconsciente de backing vocal e os monstros do porão entornam o ponche do bailinho. O policial parando o transito para a banda atravessar. Eu gosto quando o ego vai afinado e o super ego não resiste e mexe o pezinho sem nem ficar puto que o id tá dançando estranho e estragando o refrão.