do silêncio e vestidos vermelhos

 

Meu avô era louco pela minha avó, a rainha do baile de Muqui. Eu não saberia contar como foi que eles se conheceram, ela deve ter me dito e eu que não lembro mais, o que eu me lembro é que foi ela quem me ensinou a dançar, sem música, só ela mesmo cantando Adocica, meu amor, a minha vida, Adocica, meu amor… Meu vocabulário da época não era muito grande e eu achava que adocica era nome de mulher, algo como Amelinha, meu amor…enfim.

 

Naquela época, eles já eram casados e não sei quantos dos meus tios já tinham nascido. O sonho da minha vó (ela tem o nome mais trocadilhável de avó possível, que é Ketty. Né, bó?) era conhecer o mundo. E meu vô era louco pela minha vó. Foram fazer uma viagem de volta ao mundo.

 

E depois de muito tempo de navio, trem, atrações turísticas e tudo, meu vô recebe uma ligação. Eu aqui imagino a notícia chegando, com o chiado e o atraso que as ligações interurbanas tinham antigamente. O pai dela morreu. Morreu e não seria possível voltar a tempo de chegar ao enterro, nem sequer da missa de sétimo dia, nem mesmo fazendo as malas imediatamente e partindo. Ainda tinha um mês de viagem pelo menos. Dezenas de monumentos que não seriam lembrados como mereciam por entre lágrimas.

 

Não quis contar.

 

Ela entrou no quarto e ele estava calado. Saíram para jantar, ela pôs o vestido vermelho favorito, os brincos grandes de pressão. Ele só sim, não, pode ser. Ele só olhando o prato e pena, muita pena, nem um oceano todo afasta o fato que o pai dela morreu. Que o pai morreu, mas ela está feliz com a boca cheia de queijo e salada.

 

Terminaram, pagaram as contas, foram no bairro das lojinhas olhar vitrines, ele, ela no vestido vermelho e o silêncio. Compraram uma echarpe, ele não quis nada. Melhor mesmo não falar, as palavras saem com jeito de engasgadas, mais agudas e com outra pressão de ar, um assobio. Fecharam atrás de si a porta do hotel. Não deve ter sido assim, mas imagino ele já amarrando um robe branco sentando na beira da cama e encaixando os pés nos chinelos.

 

         Joaquim, o que é que você tem?

 

Ele conta. Ela petrifica. Ela chora. Ele tinha razão, isso arruína tudo (é claro) e eles vão embora no dia seguinte. O navio é cheio de enjôos e além disso, quando eles chegam, o bisavô já estava há tempos enterrado. O vestido vermelho, ela não usou nunca mais.

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