Realidade absurda – a igreja

Minha família, como num dia de casamento e como a maioria das famílias, é dividida em dois lados. O lado do meu pai e o lado da minha mãe. O lado da minha mãe é o lado judeu – ou pseudo-judeu. Tem natal e tudo, ninguém vai em sinagoga exceto quando tem casamento ou barmitzvah e de vez em quando um jantar de ano novo judaico, coisas assim.

O lado do meu pai é cristão-cristão. Cristão de acender vela, de usar medalhinha. E minha vó é devota de Nossa Senhora, o tipo que quando você olha e ela ta olhando pro meio do nada é porque ta rezando.

Daí que ela resolveu que ia oferecer todos os netos pra Nossa Senhora: aproveitava que eles eram pequenos e indefesos para subir a escada da igreja de joelhos com eles no colo, acender uma vela e pronto. Tavam dados. Ela fez isso com 8 dos 10 primos. Só eu e meu irmão fomos deixados pra depois, e então já éramos um tanto pesados demais para carregar escadaria acima. Deu no que deu.

Mas enfim. Agora ela tem bisnetas, e resolveu fazer o mesmo. Não de joelhos, claro. Genuflexões e octagenários não se dão muito bem. Mas eis que ela pega no colo a pequena Carolina, de 1 ano, e pela mão a Gabizinha, de 3 e sobe as escadas da mesma velha igreja.

Chega ao topo, reza e então acende uma vela. A Gabizinha não esboça a menor dúvida:
– parabéns pra você! Nesta data querida…

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