Mara

 

Não quero, não quero. Seguir pesa, ficar pesa. A demora me amofina. A estabilidade me enfadonha. Quisera dormir uma enfiada de dias, deixar os pensamentos costurados na fronha. Mas já estou acordada e agora vai tocar o despertador. Taí. Vovó mandava pisar sempre primeiro com o pé direito. Não tem jeito. O chão vai estar sempre mais gelado que a cama. Não quero. Vida boa é a que dá pra levar de pijama.

 

Conrada

A verdade é a seguinte.

Depilação e sutiãs azuis são um tremendo desperdicio.oh, shit.

 

Dália

Pequeno. Pequeno, que soa amoroso mas não é um apelido, uma alcunha melada de ser dar a namorado, bem diferente de xuxu, docinho, neném. Está mais para um cargo. Não vitalício e não remunerado. São todos amados, mas com a ressalva de esquecer nomes próprios. Pequeno.  Aprendi com dona Dalva, vizinha nossa na R. do Balão. D.Dalva que sabia enganar a mudança, cimentar entre as descontinuidades. Sempre teve um poodle preto, o Peralta. Andava com ele, deitava com ele, dava de comer da própria comida. Peralta morria por alguma razão.  No dia seguinte, comprava um poodle novo, preto, chamava-o de Peralta. Não Peralta2, Peralta Jr., nada assim. Peralta. E não chorava. Comodidade total, não era preciso esconder as fotos antigas, não era preciso apagar nada. Pra quê? Se o Peralta estava ali como sempre esteve. O cachorro fênix. Como o pequeno. Anda comigo, deita comigo. Um dia vai embora. E outro vem. Não outro, o mesmo. Que eu chamo pelo mesmo nome. E dizer que nada mudou, nunca mudou. Minha forma de fazer ficar desde o primeiro, lá no início. A costura para frankesteinear o amor da minha vida.

 

Júnia

Que as coisas comecem de graça. Quero que os motivos faltem. Que sejam riscados da chamada. A vida devia correr simples e fácil como se sobre trilhos. Como senão pudesse ser de nenhuma forma outra. O desenrolar natural da linha. Um carretel que descarrilha. As peças avalanchescas de um dominó. O sopro que me empurre pela tarde inteira, com o esforço de um suspiro só.

 Lara

Ia aos poucos desvelando os mistérios da cozinha, a alquimia. As magias que espreitam por debaixo das tampas de panelas, as coisas que apenas se desprendem no escuro abafado do forno a gás. O suor das mãos pra encorpar a massa, majoritariamente farinha. Para sovar a massa, para salvar a alma.