nada de novo

O que me assusta na morte não é o que vem depois. Outro mundo ou não outro mundo. Nem mesmo a dor que talvez você tenha sentido – e o medo que com certeza sentiu. Nem o destino das energias, da tua alma, das suas mãos e as moléculas, dos seus pertences pessoais, a tua carteira, a tua gaveta de documentos. Das tuas memórias, dos teus sentimento. Não, isso é o que a morte é e não podemos lidar com ela exceto por conformidade, um sacudir de ombros, uma tentativa de represa dos canais lacrimais. O que é aterrorizante na morte é o que ela não é. O que apavora são as horas de ônibus que você não vai tomar, a tua cadeira sempre vazia. É não perder a van e ir andando num dia de sol. São as noites que você não vai virar, a bobeira que não vai dar por causa delas. A pizza grátis que você não vai comer. As bobagens que você não vai ouvir, a vergonha que eu não vou passar. Não ouvir meus comentários troçando que peteca é realmente um esporte radical. É o show daquelas bandas que você não vai ver, e a blusa que você não vai vestir, mas que se vestisse ia ter a mesma cor da minha, por que quase sempre. È o regime que você não vai fazer – que não ia fazer de qualquer modo, porque você pedia salada e comia com mais 10 pedaços de pão. É a cotovelada que você não vai dar, o comentário que não vai fazer quando a moça bonita passar. É a graça que você não vai dizer duas vezes. Ou três. É isso que me apavora. O resto da tua vida. Guardado. No escuro. Avinagrando e sem salvação. Porque eram coisas só suas. Coisas que ninguém mais pode usar.