Andaime

Tão apertada que parecia pintada na pele. A calça. Tão apertada que eu teria pena da circulação da moça. Se não estivesse ocupado, acompanhando o movimento ritmado dos bolsos, um pra cima, outro pra baixo, cada vez menores até ela dobrar a esquina. E nem ouviu – ou fingiu que – quando o Salomão atirou do andar de cima:
– Deus é justo, mas tua calça é mais, hem!
E era. Um brilho nesse mar de tijolo em cima de tijolo em cima de tijolo em cima de tijolo. Nossa televisão de cachorro.Sabe, televisão de cachorro? Aquele trambolho na padaria, os frangos no espeto assando, girando. Um balé de frango. O que um cachorro pode fazer além sentar, abanar o rabo e olhar, olhar o frango dançando por que é a coisa mais bonita, olhar a pele escurecendo, caramelando, mesmo sabendo que tem um vidro e esse vidro é a muralha da china, é labirinto de laser, é uma porta de aço de 27 camadas? Mas tem a cabeça da gente, e lá é um mundo onde o vidro abre, e o dono da padaria não tem balde d’água nem vassoura e lá a gente termina com a língua pra fora e o focinho brilhando de gordura.
Meio-dia, quase. A calça crocante de cimento e argamassa. Vai começar a segunda leva, todo os tipos de menina, saindo pro almoço.O Salomão desce, eu limpo o suor das mãos no jeans. Meio-dia, quase. O tradicional gole d’água, para tirar o pó da garganta antes de atirar gracejos como quem atira confeti, o hobby da categoria, benefício que tinha mesmo é que ser garantido em carteira assinada para todo mundo que passa o dia botando a cidade de pé.
Ali na curva, aparecem as primeiras. Uma morena alta, de blusa estampada e argolas imensas nas orelhas. Uma mulata de batom vermelho e shortinho. Mãe do céu. Está dada a largada do Torneio Anual de Louva-ancas. Do dia. Eu começo.
– Minha Nossa Senhora da Bunda!
Mais dois minutos, vem a próxima. Loira, daquelas com as raizes pretas. E um bocão. Deve saber chupar, e bem. Mas calma. Nem é a minha vez. O oponente dá uma engasgadinha mas tira uma da manga no último segundo:
– Lôrinha! O que eu faria contigo dava um filme.Pornô!
Outra morena, mais velha, de vestido com estampa militar. Um desafio.
– Tá camuflada, minha linda? Que roupa boa pra eu te levar pro matinho…
Sacanagem sob medida ganha ponto. Fazer ela olhar também. A temporada promete e não é nem meio-dia e dez.Vem vindo uma bem branquinha, com um cara do lado.Salomão crava a clássica.
– Tá tudo bem, meu anjo, eu não sou ciumento…
Passam minutos, e ninguém. Mais um gole d’água, pra ocupar o silêncio de decidir se terminou o torneio.E vira a esquina uma moça bem magrela, de moletom e rosto cavado, com aqueles sapatos de plástico cascudos feios como o diabo depois de ir no cabelereiro do inferno (que é uma bosta). A ereção ao contrário. A gravidade vezes dez. O anticoncepcional genético.
– Vem pra cá que eu te chupo toda!
Ela apressou o passo. Ela não olhou pra trás. Mas dava pra ver nos pelinhos da nuca que ela gostou.
Sabe como é. Se a gente não diz nada, elas se ofendem.