concha

A primeira providência, chegando na praia, é demarcar o território: fazer sumir na areia um palmo do cabo do guardassol, chutar as havaianas e abrir o isopor. A segunda providência, mania pessoal, é cavucar a areia úmida com os pés até eles ficarem plantados, enterrados até aqui ó – na canela.

A Dandara acha graça, como acha graça em todas as minhas manias, mas enterrar os pés é sagrado, é o equivalente do que o carregador é pro iPhone, me plugar e sentir a energia borbotando para dentro de mim. Me esvazia da sujeira da semana, da brancura desagradável do escritório, do relatório para terça feira, da gravata que ás vezes parece querer virar forca.

O efeito é imediato, uma tranquilidade muito grande avança e recua em mim, no ritmo do mar. Essa é a mesma praia que eu vinha criança, eu, o pai e os primos, nos fins de semana que eram do pai. Ficou tanta infância nessa areia.

No guardassol à esquerda a menina faz um castelo de respingos com a lama de um balde. Deixa os pingos cairem por entre os dedos, formando torres e muros. Se não tivesse aprendido na faculdade, acreditaria que esse era o método que usava o Gaudi. Não consigo imaginar um elogio maior que esse: tudo que você constroi parece um castelo de areia. Abro a primeira cerveja.

– Amor, você quer?

– Ainda não. Brigada.

A ilhazinha engana tão bem. Finge que é perto. Aos 10 anos parece mais perto ainda, se você tem uma prancha de bodyboard e algo a provar. Meus primos tinham 12, 13. A molecada do prédio tinha mais. O Breno que apareceu com a ideia, Vamos Passar a Tarde na Ilha? E surrupiaram cerveja e cigarro do apê dos pais, tudo enrolado dentro de saco plástico dentro da mochila. A Renata pegava na minha mão e perguntava baixinho Você Vem Também, Né, Neto?, até hoje não sei se ela me queria por perto ou se só não queria ser a mais nova dali.

A menina do guardassol à esquerda agora está concentradissíma na mais nova reforma em sua obra: o fosso duplo com água de verdade, com direito à ponte de palito de picolé na entrada sul.  De longe, o menino mais velho observa inquieto, e qualquer um que foi criança já sabe, só de olhar, que dentro de instantes o menino será godzilla e o castelo será Tóquio.

Eu avisei que a gente ia pra ilhazinha, meio querendo que ele nos impedisse, mas o pai não ligou muito, só falou pro Fábio e pra Renata Fica de Olho Nele, Hem?. Eram 2 da tarde e o sol tava queimando a ponto de todo mundo entrar no mar de camiseta. É estranho mas parece que o pano com água salgada cola mais. Amarrei a cordinha da prancha no punho e me joguei nas ondas atrás dos mais velhos. A lhazinha engana. O mar também. Você acha que nadou 20 metros, mas mal saiu de perto da areia. O sal entrava no olho. A cabeça parecia que ia pegar fogo.

Cada chato tem seu jeito de destruir um castelo de areia. O do menino era com todo entusiasmo que você puder imaginar, correndo desde a água em linha reta, dando impulso e aterrisando com os dois pés no meio da construção. Teve grito, mas em segundos o fosso já era uma fonte lama para tacar no irmão.

É claro que eu fui o último a chegar, vermelho, esbaforido, salgado, com a prancha algemada arrastando no chão. A mulher do padre. Tavam todos estendidos na areia e o Breno começou a distribuir as cervejas mornas de mão em mão. Achei azedo, mas tomei. Ninguém mandou andar com os mais velhos. Se quisesse picolé, que ficasse na praia com o papai.

Do Gaudí miniatura, ficou só um círculo no chão. O menino agora jogava alguma espécie de gameboy compridinho, e a menina pulava ondas, mergulhava, subia, boiava.

Como eu suspeitava, brincar de adulto era um saco. É a brincadeira mais chata do mundo, com bebida amarga e cigarros sem chocolate. Fui dar a volta na ilha, pro tempo passar e achei uma concha muito grande. Dizem que pondo na orelha dá pra ouvir o barulho do mar, mas como saber se o som vinha da concha quando as ondas de verdade estão quebrando bem ao lado? Fui bordejando a ilhota, a areia acabava, daí tinha pedra, a pedra acabava, daí tinha mato, sempre com a concha no ouvido falando Alô, Alô, Houston, Temos Um Problema. E de repente eu ouvi Alô, e gelei. Não era a concha. Era o Breno. Se Perdeu? Tô Só Dando Uma Volta. Entediou? Achou a Gente Chato, Foi? Não, tou só Dando Uma Volta Mesmo. Vou te Mostrar Uma Brincadeira Nova. Cê Nunca Mais vai Ficar Bodeado. Eu tive certeza que eu não ia gostar da brincadeira, podia sentir meu estômago dando cambalhotas dentro de mim. Nesse dia eu descobri como meus instintos são bons, porque meio segundo depois ele puxou pra baixo o elástico da bermuda florida e perguntou Você Já Brincou de Bater Punheta? Eu não sabia o que era punheta e a última coisa que eu queria era ficar lá pra descobrir. Corri de volta, ralando os joelhos nas pedras, e deixei lá o Fábio, a Renata, peguei só minha prancha e fui, fui pra onde tinha sorvete e as pessoas deixavam seus pipis guardados. O pai tava bêbado com os amigos e eu construí uns quantos castelos de areia olhando pro mar, meio culpado de ter deixado os primos lá, com medo deles ali, ilhados com um mostra-pintos.

Se eu pudesse escolher agora, eu teria chutado o cara nas bolas com toda a força.O menino do guardassol à esquerda continua jogando videogame. A menina. A menina está bem longe, e eu vejo só a tampinha da cabeça. Um bracinho e espuma. Essa cena parece estranha e as minhas entranhas de repente começam a pesar dentro do meu corpo. O salva-vidas não está na cadeirinha, e enquanto eu arranco os pés afundados da areia, Dandara levanta os olhos do livro, Que Foi, Amor?

Não dá tempo de explicar, eu aponto e saio correndo, ainda dá pra ver a cabecinha castanha ali no fundo, e agora já não dá, e o sal arde nos olhos quando eu tento enxergar debaixo da água, mas eu fico de olhos abertos e não encontro, e vejo bolhas perto das pedras, mas não era nada, e eu mergulho por mais tempo, vejo o salva-vidas finalmente pulando n’água, mas quando eu subo a onda me afunda e perco a noção de qual lado é para cima, o peito aperta de urgência, mas outra onda me carrega com força e dessa vez eu sinto as pedras, os pequenos mariscos cortantes que moram nas pedras e não preciso de nenhum médico para saber que esse impacto foram minhas costelas se quebrando como um titanic qualquer, o último fôlego escapando do pulmão misturado com um grito, meu pobre corpo automático aspirando água pra dentro de mim, os pulmôes ficando pesados como uma âncora dentro de mim, e agora é impossível não afundar, abro os olhos e não vejo a criança e não sei pra que lado fica o céu, pra que lado fica o chão, para que. Lado. fica.

Minha casa.

Tenho pena.

de Heloísa.

vai sobrar pra ela.

o relatório.

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phil collins

Lembra quando você achava que o segredo das coisas era querer?

Lembra quando tudo era fácil e possível,

Lembra que você poderia ser presidente se quisesse

E que bastava escolher para onde você queria ir?

Lembra quando você achava que podia ser bom

E que o futuro era brilhante

E que no fundo

(e na superfície)

só dependia de você?

Bem vindo de volta.

Sentimos a sua falta.