Sobre nomes e bois

Daí que eu percebi que eu tenho quase 30 anos e ainda escondo meu nome no blog.

Criei esse blog em (pausa pra olhar os arquivos) Junho de 2005, durante a faculdade para publicar uns poeminhas que tinham feito sucesso na aula de Língua Portuguesa (favor não entrar nas profundezas desse blog para averiguar).

E por muito tempo eu usei nomezinhos inventados, aliás, tenho amigos que fiz por esse blog que ainda me chamam de Czá. Coisa de gente tímida, sabe como é.

Mas né, quase 10 anos de blog. Acho que deu tempo de me acostumar com a ideia. Então, se ainda tem gente lendo isso aqui:

Muito prazer, meu nome é Nathalie.

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ah, saiu um conto meu na revista Flaubert #6, junto com muitas outras coisas legais.

Leia aqui: http://issuu.com/revistaflaubert/docs/flaubert006?e=0/8981633

encontros

Quando entramos no restaurante, foi como se o silêncio estivesse ali só para nos receber: o silêncio recolheu nosso casaco, apontou nossa mesa, o silêncio nos trouxe uma cesta de pães. Nenhum de nós tocou neles. Os primeiros encontros são sempre desconfortáveis, mas cá estamos: eu e Kátia entre as toalhas de mesa xadrezes e as velas derretidas pela metade que todos os restaurantes tristes têm.

Ela tomou um gole de água, deixando uma meia-lua de batom na taça, a espiar as mesas ao redor. Eu também procurava algo a dizer, mas já tinha gasto os assuntos fáceis como o trânsito e o tempo, a família e o trabalho no caminho. Abri o cardápio, quem sabe eu não encontraria um milagroso erro de português e riríamos juntos desse restaurante podre que eu escolhi, onde se escreve alho e olho em vez de alho e óleo?

Antes que eu pudesse encontrar qualquer erro escabroso, ela mesma tratou de inventar um assunto.

– Isso na sua mão é uma cicatriz? Uma marca comprida dessas… como foi?

Senti o olhar dela sobre a pequena cordilheira cor-de-rosa nas costas da minha mão. Era como se meu pai estivesse de repente sentado entre nós dois, na lateral da mesa, a reprovação deixando os olhos puxados ainda menores. Houvera sido em um sábado, o sábado da festa de Raíssa, uma das meninas da minha sala. Ia ter piscina, filme, lembrancinha. Só que era de tarde. Manhã, brincar. Tarde, estudar. Essas eram as regras em casa, ditas no mau português que imperava no bairro da Liberdade. Na prática, isso significava que sábados eram cinquenta por cento melhores que os dias da semana, quando as palavras de ordem eram Manhã, estudar. Tarde, estudar mais. Eu tinha um quartinho de estudo que o pai trancava por fora, com nada além de uma escrivaninha, uma cadeira, uma luminária e uma janela, por onde tentei escapar no dia em que Raíssa fazia 11 anos. Que azar. O pai estava bem no quintal, e me puxou pelos cabelos de volta pra casa, até eu cambalear para dentro do quarto, lágrimas e ranho borbulhando de raiva e segurei a porta para ele não me trancar. Hoje não. A porta fechou com força, uma, duas vezes, três vezes minha mão contra a madeira e o metal da tramela antes de eu largar. A mão, molhada de vermelho e inchada demais para segurar um livro. Mas a mãe só conseguiu me destrancar de madrugada, depois do pai ir dormir. Era tarde demais, a festa já tinha acabado. Era meu aniversário também.

– Isso na sua mão é uma cicatriz? Uma marca comprida dessas… como foi? – Kátia esperava a resposta com as sobrancelhas lá no alto.

– Caí de uma árvore. Sabe como são os garotos.