coisas de vidro

O tempo pára enquanto anita segura o jornal

O jornal aberto em espelho

Não mostra um trem descarrilhado

Milhares de mortos, uma criança perdida

É o caderno cotidiano

Os benefícios da reciclagem

E uma nota no canto esquerdo

O marido de anita está fora

Ele anda na rua e não sabe

Na coleira vai Rodolfo, nariz úmido colado ao chão

O cão pára frente ao sinal

Na rua ele não é um cachorro

É um soldado, uma enfermeira, um pai amoroso

Não há tempo para postes e latas de lixo

Não há tempo para latir para o carroceiro que passa

Há que se levar este homem que não enxerga para casa

Esse homem que leva ovos e leite e lhe dará um biscoito quando chegarem

Quando ele poderá se coçar e ser um cachorro

Anita não decora a casa há anos

Nada jamais muda de lugar

A banqueta um pouco à direita é um tropeção

Uma porta inadvertidamente aberta, um hematoma

Cada coisa em seu lugar e é como se Rubens enxergasse

10 passos entre a porta e a cozinha

escova de dentes: 1 palmo à esquerda da pia

E por isso a casa idêntica por pelo menos 20 anos

O mesmo perfume há 30

Rubens e o cão no elevador

Um signo de pontinhos: terceiro andar

São 10 passos até a cozinha, um biscoito

Uma nota na página esquerda

Caderno cotidiano

Desimportante

Um perfume que sai de linha

Uma fragrância que não mais se fabrica

O único rosto que um marido conhece

O mesmo cheiro dos lençóis, dos travesseiros

Que a três passos adentro da porta diz:

Anita já chegou

Anita está na cozinha

Anita está na sala e come pipocas vendo televisão

Anita que será uma estranha

Ao fim de dois dedos

Dentro de um vidro

sobre a penteadeira

3 palmos à esquerda de uma caixa de bijuterias

a 20 cm do espelho

a 1 metro e meio

do chão.

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tentativa de tradução

de um poema de Michael Blumethal, do livro AND.

E Após um Terremoto de Tal Magnitude, O Que Pode Ser Dito Sobre os Deuses?

Que eles estão possuidos de uma gigantesca indiferença para com nossos pequenos

destinos humanos, que não passamos de uma reunião de formigas-cortadeiras

nas florestas de suas perambulações, que nós somos brinquedos de montar,

os LEGOs, trepa-trepas e kits de construção de suas horas de lazer

que os terremotos, as guerras, as misérias e as moléstias devastadoras

a nossa volta os deixam supremamente inafetados, que eles estão ocupados

tanto quanto o restante de nós, com seus casos e traições e suas

pequenas crises econômicas, seus balanços de pagamentos, suas restituições de impostos

seus prazos para inspeções veiculares, suas esperas na fila por vacinas

da gripe e ingressos para oWorld Series, que eles estão ocupados fazendo

compras natalinas, esperando que suas roupas sequem na lavanderia,

que eles não nos amam como deveriam amar, nem mesmo como poderiam.

And After an Earthquake of Such Magnitude, What Can Be Said About the Gods?

That they’re posessed of a gigantic indifference to our small human

destinies, that we are no more than a gathering of leaf-cutter ants

in the forests of their peregrinations, that we are the Tinkertoys,

the LEGOs, the jungle gyms, and the Erector Sets of their leisure activities

that the earthquakes, the wars, the famines, and the ravages of illness

that surround us leave them supremely unaffected, that they are busy,

just like the rest of us, with their love affairs and betrayals and their

little economic crises, their balances of payments, their tax returns,

their automobile inspection deadlines, their standing in line for flu

vaccine and tickets to the World Series, that they are busy doing their

christmas shopping, waiting for their clothes to dry in the laundromat,

that they do not love us as they should have, or even as they might.

como assim?

Não é culpa sua
Minha vida gira em torno de um objetivo pouco circular
Não sofrer
Não existe isso
Porém
Daí foi gestada a covardia
E a esquiva
Daí peneirar na polenta
As pepitas de ouro
Que eu chamarei de amigos
E demora
A menos que haja um milagre
Mas eu pouco faço de milagres que não seja desperdício
Eu risco milagres feito fósforos
( a eletricidade não é afeita a milagres, eles se apagam)
Eu bem sei
Eu sou forte e ferrenha de unhas largas
E sou mais feroz que sei quantos animais
Mas não se eu já fui atropelada
Apenas ontem
Não que alguém saiba
Porque eu não sangro
Pra fora
Mas não é culpa sua
Me dizer o que eu me digo
O que me custa 18 horas por dia
De sutil persuasão
Para não acreditar.

(assim.)