Piada

Emagreça 4 quilos em uma semana com a dieta das marés. Sorte de quem só precisa perder 4 quilos.

 

Fechou a Nova e a ajeitou de volta no topo da pilha de revistas da sala de espera. Essa revista não era para ela. As dietas para quem quer ter barriga negativa. Hoje em dia, ter barriga reta não é suficiente. Ela tem que ser côncava. Pra dentro. As roupas que não existem em tamanhos que ela pode comprar. As posições sexuais que provavelmente foram inventadas por acrobatas.

 

Ajeitou as rugas que se formavam na saia preta de sarja (a mais séria e profissional do guarda-roupa), colocou pra dentro as pontas da camisa de chifon, com discretas estampas coloridas (uma mensagem subliminar: sou alguém com quem você quer trabalhar).

 

Marta descruzou as pernas (cruzadas, sinal de pessoa fechada). Verificou cada botão da blusa. Dois botões desfeitos (uma vagabunda). Um botão desfeito (à vontade). Abotoado até o fim ( uma freira encarnada em Gerente de Marketing). Abriu um botão.

 

Não é como se sua vida dependesse dessa entrevista. Mas é a Coca-Cola. Imagina dizer que trabalha na Coca-Cola? Faz dias que se prepara mentalmente para essa entrevista.

 

Um animal: uma águia. Forte, visão aguçada, sem medo de voar alto. Maior qualidade: persistência. Maior defeito: perfeccionismo, não, que clichê, insegurança. Insegurança é melhor. Um ídolo: Steve Jobs. Um filme: Erin Brokovitch. Ninguém contrata alguém que responde Caça-Fantasmas.

 

*

– Bzzzz. Marlene, manda entrar a candidata.

*

Ombros para trás (confiança, extroversão), passos lentos (tranquilidade) e um sorriso fechado, sem mostrar os dentes (não precisa de muito para um sorriso virar um rosnado). Respira fundo e calcula a expressão perfeita antes de entrar na sala.

 

A expressão perfeita se fixa na sua cara e cai dentro de 2 segundos, como purê de batata arremessado contra a parede.

 

A entrevistadora é baixa, morena, usa óculos de armação vermelha. A entrevistadora usa uma calça de crepe marinho e uma blusa cor de creme, e tem os cabelos presos em um rabo de cavalo perfeito. A entrevistadora tem exatamente a sua idade. E ela sabe disso por que é a Lúcia. A Lúcia da segunda série B.

 

– Bom dia. Lúcia Garcia. Marta, não é?

– Isso. Marta. Marta Levy.

 

Na lente dos óculos da outra, um reflexo branco e redondo. Demorou um pouco para ver o que era. Era ela mesma.Sentiu a boca pastosa.

 

– Por que você quer trabalhar aqui?

– Ah.É… ahm, quem não quer? Rêrê.

– (suspiro) A Coca-Cola Company é uma ótima empresa. Quem trabalha aqui gosta muito. Mas eu quis dizer: por que você deveria ser nossa próxima Gerente de Marketing?

 

Atrás dos óculos, a Lúcia ainda tinha aqueles olhos muito pretos. Muito vivos. Aquele tique de espremer os olhos um pouquinho queria dizer que ela lembrava de Marta? Ou era uma reprovação silenciosa ao seu jeito de falar, de sentar, de existir?

 

– Ah, bom. Rêrê. Eu trabalho com Marketing há quase 10 anos. Eu já trabalhei em 5 empresas, 3 de grande porte. No momento, eu cuido da comunicação da Nabisco. E eu acho que a Dal Valle. DEL Valli… a linha de sucos de vocês estaria em boas mãos.

 

– Aham. Fala um pouco mais do que fez na Nabisco.

 

Se ela se lembra dos tempos do Santa Maria, não dá pra dizer. Marta não sabe o que é maior: o medo dela se lembrar ou a raiva, caso tenha esquecido? E de repente foi como estar de novo na sala, depois que todo mundo saiu para o lanche. O tomate maduro e o sachê de sal, o suco de abacaxi sem açúcar, um dos lanches que o endocrinologista permitia.

 

Na sala, ela não precisava ver as bolachas sendo abertas, nem sentir o cheiro artificial e malicioso dos salgadinhos, nem cobiçar os tazos que vinham ali dentro, coertos de poeira amarela. Naquele dia, ela foi jogar fora seus guardanapos e na volta encontrou um papel de caderno dobrado.

 

– Faz algo como três anos que estou lá. Comecei na divisão de biscoitos salgados. Meu chefe era o Túlio, não sei se você conhece. A campanha do “Nhac. É Nabisco” é da minha época. Que mais? Eu fiz parte do lançamento das embalagens Abre-Fácil…

 

Se deu conta de que estava sacudindo o pé a uma velocidade impressionante. Se obrigou a parar. O bilhete era assinado pelo Otávio. A letra parecia ser dele mesmo e dizia: Me encontra no pátio? O sangue se infiltrou pelas suas bochechas, e pelo calor ela sabia que estava vermelha.

 

Ajeitou a presilha para tirar a franja da testa. Amarrou o sapato. Queria correr até lá, mas não queria se desarrumar ( e, além do mais, as pessoas riam quando ela corria). Então chegou devagar. A sala inteira estava lá.

 

– Sim, acho que lembro dessa campanha. Ou será que estou pensando na Bauducco? E depois? Você continua com os biscoitos salgados?

 

A sala inteira estava lá. Em círculo. O Marcelo segurava o riso. A Márcia, a Lúcia e a Gabi se entreolhavam. Todos pareciam estar prendendo a respiração e olhavam para ela, menos a Sophia, que olhava para o chão. Entre os 20 rostos, achou o Otávio.

 

– Ahm… Não exatamente. Eu. Eu fui transferida para a linha de aperitivos. Bon Gouter, Ritz, Torraditas. Este ano estamos reformulando algumas das receitas… mas não lançamos ainda.

 

A primeira pancada foi no ouvido. Não era duro. Era mais como. Firme. Gelado. Repentino. A segunda pancada foi no ombro. Olhou para o chão. Viu duas peças de mortadela. A terceira pancada foi na nuca. Três peças. Só então voltou a ouvir o som ao redor e, por entre as risadas, seu nome. Marta, Marta-Martadela, Mortadela, Marta. A quarta pancada foi no peito. Martadela. A quinta, na barriga. Marta-Mortadela. Mais-um-quilo-para-ela. Marta-Marta-Mortadela. A sexta, no joelho. Marta-Marta-Mortadela-é-de-porco-que-nem-ela. A sétima, na boca.

 

– Muito bom. Você tem bastante experiência. Qual a sua opinião sobre sucos light?

 

O sinal tocou. O círculo se dissolveu em segundos. Caminhou para a sala como se andasse em um túnel. A freira anotou um atraso em sua ficha. Marta não anotou nada no caderno. Na sala da diretora, suas pernas balançavam, enquanto ouvia a diretora explicar para sua mãe, Deixa, Foi Piada. Brincadeira de Criança.

 

– Bom, tudo que é light está em crescimento, rêrê. A única coisa é que no segmento light, o suco sai em desvantagem por não ser caloria zero.

 

As freiras repreenderam a classe no dia seguinte. Desperdiçar comida é pecado.Ano passado, ela tomou coragem para contar a história da mortadela pela primeira vez fora do Santa Maria. Foi a primeira vez que viu sua analista rir. Aquela freudiana ossuda e sisuda, que tinha como regra não dizer nada além de Boa Tarde e Seu Tempo Acabou. Ela riu.

 

– Que pena, aqui na Coca, a gente considera isso um ponto forte. É mais natural que o resto do segmento. Olha, obrigada…Marta. Seu telefone está no currículo? Devemos terminar a seleção em mais uma semana.

 

Marta esqueceu de apertar firme a mão de Lúcia (confiança, sinceridade) e de agradecer pela entrevista (educação, simpatia). Marta percebeu que deixou a bolsa na sala, e vendo a entrevistadora levantar o rosto, tentou achar qualquer sinal de reconhecimento.

 

Entrou no elevador, mas queria mesmo era entrar debaixo das cobertas e (não deveria) abrir um pote de Nutella.

O Pai da Lúcia trabalhava na Perdigão.

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Zózimo (ou: o epicentro do azar)

Rezam as leis da probabilística que, mesmo que a chance de ganhar na loto seja 1 em 7 bilhões, eventualmente algum bastardo sortudo colocará suas novas-ricas mãos naquelas barras de ouro que valem mais do que dinheiro.

Isso não é algo que o universo possa deixar impune, por questões de equilíbrio. Para cada surto de sorte galopante, deve haver uma maré suja de azar equivalente, de proporções atlânticas.

De forma que, a cada geração, surge um Zózimo. Para você, ente pouco escolado nas hierarquias que fazem funcionar a corporação cosmonáutica do universo, explico: o Zózimo é o bode expiatório do azar, a criatura para onde se dirigem de forma simples, rápida e automática os grandes revezes gerados pelas explosões de sorte.

Pois bem. Os Zózimos, como você pode imaginar, não duram muito, mas é possível reconhecê-los. Uma das características básicas do ser humano eleito para a posição é o nome: geralmente algo como Urraca, Antilóquio ou, o clássico, Zózimo.

O que você considera azar, para um deles, seria o dia mais feliz de toda sua vida. Quer dizer, a torrada de um zózimo não cai com a manteiga para baixo, ele come normalmente e depois morre de forma lenta e cruel por um fungo desconhecido que estava no pão.

Ele encontrará uma moeda no chão, apenas para ser atacado por uma capivara recém-saída de um bueiro. Ele ganhará uma aula grátis de surfe, durante o período de procriação do grande tubarão branco. Ele procurará paz em um convento apenas para acabar assaltado por uma quadrilha de freiras.

Quais as chances disso acontecer? Oras, pergunte ao babaca que ganhou na loteria.