Contra a parede

Na quinta-série, diriam que é coisa de maricas. No colegial, que é coisa de boiola. No trabalho, que é coisa de viado. E imagino que, em algum asilo, algum velhinho vá dizer que é coisa de rabicho.

 

Pelo jeito,  botar uma rodela de laranja na borda de um drinque é sinônimo de beijar meninos. Tudo bem, eu gosto dos dois. O barman tatuado, com chapéuzinho de marinheiro e blusa listrada, preenche o copo com gelo e uma mistura de aperol, água com gás e prosecco. Coisa de viado. O outro copo, ele preenche com morango, açúcar, saquê. Coisa de menininha.

 

Eu entrego o drink pra Dani. Aqui, a estratégia de conseguir o drinque mais rápido com a ajuda do decote não funciona. Aqui é o reino do biceps. Isso você percebe só de olhar para a pista. Gente tão bem vestida, tão antenada, ouvindo música tão boa. Não é coisa de HT.

 

Por entre os corpos, a gente vai abrindo caminho, no jogo de equilíbrio de não derramar o Spritz. Procurando o Lucas, a Sarah, a Meg e o Rubens entre tantas pessoas balançando e  trocando de cor.

 

Ali, aos pés da plataforma onde os mais bebâdos já faziam pole dancing, nosso grupinho se mexia de olhos fechados, os drinks iluminando o corpo por dentro. Tirando o Lucas, do escritório. Durinho, encostado na parede, como se a qualquer momento alguma mão gatuna fosse se espalmar na bunda dele. É assim que se reconhece um HT na balada gay. Os olhos sempre alertas,segurando náufrago a mão da namorada.  A bunda contra a parede.

 

A pior parte de ser um cara gay é a autoestima do homem hétero. O que mais explica essa cisma de que todo viado vai dar em cima dele? Até aqui, com um salão inteiro de caras gatos, caras legais, e , mais importante, caras que gostam de outros caras para eu escolher, o pobre Lucas sua frio toda vez que eu chego perto.

 

***

Na varanda que faz as vezes de fumódromo desde a proibição do cigarro, uma mãozinha encosta no meu braço.

 

– Me dá um cigarro?

 

Sarah, namorada do Lucas, abriga a chama com a mão, antes de tragar fundo, quase como um suspiro. A maquiagem em uma trilha negra do olho ao queixo.

 

– Tudo bem aí?

– Preciso ir embora. Mas precisava mais de um cigarro.

– …

– Terminamos. Eu e o Lucas.Não dá mais. É uma cena  toda vez. Sabe qual foi a de hoje?

Ele acha que eu estava dando em cima de um cara. Aquele que tava pirando quando tocou Rihanna. Aquele com a blusa de gola V enorme. Fala sério, o que aquele cara queria eu nem tenho. É uma balada gay, porra.

– Homem é tudo tonto. Vai por mim, Sarinha. Amanhã ele vai aparecer na sua casa de joelhos, dizendo que você é uma rainha. Você é.

– Sei lá. Não tenho mais energia pra tudo isso. Tô tão cansada.

– …

– Rique?

– Oi.

– Obrigada pelo cigarro.

 

***

Já são grandes os espaços na pista. A parte da festa em que só restam os mais bêbados e os mais animados. No meu caso, acabo de me despedir do menino lindo que eu conheci, ainda sentindo o peso das suas mãos na minha nuca. Um arquiteto de cabelo raspado, com covinhas que cravavam no seu rosto, quando sorria. Ligo para ele na segunda? Ou é melhor esperar até quinta, fazer um charme?

 

E aí, passando os olhos pela pista, eu vejo. O Lucas ainda está aqui. Sozinho. Ninguém ao redor. A bunda ainda colada à parede. E a cara de quem não está aqui.

 

– Lucas?

 

Não me ouviu. Continuou a balançar sem ritmo, como se não ouvisse música,como se estivesse de pé no meio da tempestade.

 

– Lucas. Você tá bebado. A festa acabou. Vai pra casa.

– Não dá. A Sarah. Levou meu carro… A chave.  A minha chave do apê.

– Deixa de ser bobo. Eu te levo. Eu te levo, tá?

 

O que fazer, quando no taxi, o homem mais hétero que você conhece chora aos soluços? Eu olhei pela janela, para os faróis dos carros que voltavam para suas garagens antes do amanhecer. Mil  luzes escorrendo lentas pelas veias abertas da cidade.

 

Subimos. Ele escorado no meu ombro. O medo de uma fungada, de ter um homem com os braços ao redor de si, afogado por uísques e cerveja.

 

O lençol infla antes de descer aberto sobre o sofá. Duas almofadas na mesma fronha. Está pronto o travesseiro.

 

– Rique? … Cê é foda.

– … Deixa disso. Ei, você dorme com coberta?

 

A resposta foi um esguicho de vômito no carpete. E outro. Na lista de vítimas do ataque de ácido, sua camisa, suas calças, seus sapatos, sua barba, suas mãos. São noites como essa que separam colegas de trabalho e amigos, aqueles de verdade. Você nunca é amigo de verdade de alguém, até ter limpado seu vômito.

 

O desafio de abrir os botões da camisa sem tocar no que deviam ser os restos mortais de um hot dog. De convencer o Lucas a tirar as calças, a entrar no chuveiro. De ver a água escorrendo sem que ele se mexa. De entrar no boxe de roupa e tudo para passar sabão na barba, tirar os pedacinhos de salsicha do cabelo. De torcer para ele não lembrar amanhã, aterrorizado, que o viado do escritório viu ele pelado.

 

Até que ele se mexe. Me puxa para baixo dágua.

 

Deixo.

 

O gosto de uísque.

 

O cheiro de planta do meu xampu.

 

Um joelho molhado.


E o dark room do seu corpo.

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