Afazeres para primeiro de janeiro

 

Reconhecer em uma criança

os mesmos cabelos que você tinha

Sentir o cheiro que têm as folhas pequeninas

caídas das árvores, quando pisadas

Uma vontade marota de andar de pedalinho

em um lago encardido e verde

(mas só nos que parecem enormes cisnes)

Sentar em cadeiras de madeira

pintadas com cenas mexicanas

Buscar, enquanto caminha, uma mão que se desvencilha sempre

&

Deitar com o céu azul ainda acenando à janela

e relembrar o caminho de casa.

Brevê

Para voar,

é preciso aprender com os passarinhos

chamá-los de mestre,

e cantar as manhãs

Para voar,

é preciso encher os ossos de vento

e amar a própria pequenez

se sentar para dormir entre as miudezas que você chama de ninho

(e é possível que também ajude

ciscar um verme ou dois)

Para só depois fechar os olhos,

e perder o chão.

um poema

Um poema é um jeito bonito de dizer

que o dente me dói

um jeito bonito de dizer

que ninguém levou o lixo para fora

que acordei esta noite pensando que ia morrer

que o cinzeiro ficou na varanda, e choveu

que eu falhei mais uma vez

que eu preciso dizer algo a alguém que amo

mas não sei como

Um poema é um jeito bonito de dizer

que existe uma vela acesa no peito

mas a chama deita com qualquer vento

que as pequenas moscas conseguem chegar ao décimo andar

que o dia foi uma total perda de tempo

que eu permaneci parada quando a música tocou

 

Um poema é um jeito bonito de dizer

que é impossível dormir com as portas dos armários abertas

um jeito bonito de dizer

que a vida está quebrada

 

mas não acabou.

Sobre nomes e bois

Daí que eu percebi que eu tenho quase 30 anos e ainda escondo meu nome no blog.

Criei esse blog em (pausa pra olhar os arquivos) Junho de 2005, durante a faculdade para publicar uns poeminhas que tinham feito sucesso na aula de Língua Portuguesa (favor não entrar nas profundezas desse blog para averiguar).

E por muito tempo eu usei nomezinhos inventados, aliás, tenho amigos que fiz por esse blog que ainda me chamam de Czá. Coisa de gente tímida, sabe como é.

Mas né, quase 10 anos de blog. Acho que deu tempo de me acostumar com a ideia. Então, se ainda tem gente lendo isso aqui:

Muito prazer, meu nome é Nathalie.

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ah, saiu um conto meu na revista Flaubert #6, junto com muitas outras coisas legais.

Leia aqui: http://issuu.com/revistaflaubert/docs/flaubert006?e=0/8981633