cotidiano medley

Era essa a ordem das coisas: primeiro, o chão. Sobre o chão, a poltrona, Sobre a poltrona, eu, Sobre mim, o cão, Sobre o cão, a coberta, Sobre a coberta, o livro, Sobre o livro, minhas mãos. Minhas mãos geladas que preferiam estar, como o cão, entre eu e a coberta, mas dedicavam-se à tarefa ingrata de segurar o tomo e virar as páginas e ranger mal-humoradamente em protesto ao frio. Mãos indolentes e de unhas sujas. Mãos minhas. E o livro morria página após página (eles morrem quando levamos a vida que há neles pra dentro de nós) como se as mãos não estivessem nele, e ele não estivesse sobre as cobertas, como se as cobertas não cobrissem o cão, e o cão não dormisse em meu colo e eu não me sentasse na poltrona, e a poltrona definitivamente não estivesse no chão.

(Do outro lado da cidade, eu gostaria de dizer, mas não direi, afinal é tão perto) Não muito longe, ali na cidade, mamãe punha um recém nascido nu na balança. O recém nascido não gostou muito e, pra ser bem franca, acho que a balança também não. Na sala de espera, um homem com sério caso de hemorróidas sentava-se meio de lado, lendo uma revista Seleções de 1997, ouvia os urros infantis balançando o pé ritmicamente e pensava consigo mesmo que pra uma música da britney spears até que não estava tão ruim. Mamãe e pediatra faziam backing vocal dizendo “bebê bonzinho, bebê bonzinho, tchutchutchu” naquela voz que é reservada para crianças pequenas, bichos de estimação, deficientes mentais e, sim, alguns tipos de namorados.

Agora sim do outro lado da cidade, maninho aprende os segredos da vida e da morte. Mãos enluvadas, bisturi na mão. Na mesa cirúrgica, um cachorro que não tem colo, nem coberta, nem dono, mas tem umas vísceras deveras interessantes se você estiver interessado em passar no teste prático de anatomia. Sabe quando eles dizem “sacrificar”? é isso. O cachorro mártir e o futuro da medicina. Mas não se preocupem com totó. Vi num desenho que todos os cachorros vão pro céu.

De volta ao lugar não tão longe da cidade, nosso amigo das hemorróidas entra na salinha do doutor. À sua espera, não está só a mesa que parece obstétrica (mas que sugere joelhos no sentido inverso), mas também um homem de 1,90m e mãos perturbadoramente grandes. Ele sorri. Pensando bem, essa consulta é algo que você talvez prefira não imaginar.

Horas se passaram, mas o chão ainda não está lá.Só mais um pouco antes que tudo volte, tão sem nada pra preencher esse tudo. Eu nunca dou atenção às queixas das falanges, falanginhas e falangetas dramáticas. Porque eu sempre tive mãos frias e dedos de gelo perpétuo como se eles fossem o cume da montanha que não sou. E elas só se aquecem na eventualidade improvável de exercícios encasacados, ou na mais provável de vinho, cerveja, absinto ou vodka, mas daí é escarlate por toda a parte, incluindo pés e mãos e rosto e a pele detrás das pálpebras que queima e quase incomoda. Mas no momento são só as unhas róseo-arroxeadas e minhas mãos inúteis de quem não faz nada.
E meu far niente, cada vez menos dolce.

pequenice

Para J. e o pequeno buda que mora em seu bolso.

Ela tinha só 10 anos quando aconteceu. Pequena Carlota. Querida Carlota. Ela tinha os cabelos escorridos e pretos com aquela franjinha que toda mãe obriga a filha a ter, tinha feições miúdas, concentradas no centro do rosto, como se os olhos, o nariz e a boca estivessem agarrados pra fugir do frio. O queixo triangular e atrevido.
Tinha só 10 anos quando percebeu. Quando descobriu. Quando um dia, de repente, ela foi a única que viu, um pequeno deus escondido e dourado e que morava na garagem dela, entre a casa de bonecas e a bicicleta, no armário velho que ninguém usava. Soube na hora que não era bicho: não teve medo dela. Há quanto tempo tempo ele tinha estado lá? Dourado e tranquilo, observando as aranhas fazerem suas teias.
Tomou a dividade sob sua responsabilidade. Levava-lhe todo dia uma gamela de néctar e de ambrosia, que são os alimentos dos deuses, como ela sabia. Na verdade, levava suco e doce de leite, mas chamava-os de néctar e ambrosia, e assim funcionava o suficiente. Às quintas, lhe acendia um incenso.Ficava orgulhosa. Dizia ao armário: “você tem sorte. eu te trato feito um rei” daí ria-se ” feito um deus!”. O outro só calava.
Um dia, um sábado, nada havia pra fazer. Carlota sentou na garagem, brincando de boneca. Percebeu que a encaravam do armário.
– quer brincar?
– sou uma divindade. não brinco com bonecas. brinco com gente.
-bonecas são mais divertidas. e depois, nunca vi você brincando com gente.Nem com coisa nenhuma. Você é deus do quê? dos armários?
-Sou um deus-sol.
– você não brilha.
– eu não disse que sou O sol.Eu sou um deus-sol.
– E o que você faz?
-eu represento o sol.
-pra quê? o sol representa o sol. ele não precisa de você.
-eu sei.
-por isso o armário?
-é.
-… . Você tem nome?
– não.
– você tem poderes?
-não. eu só tenho esse armário.
E passou o sábado. Carlota passou a debater com sua representação de sol. Parou de trazer doce de leite. Ele não precisava. Mas sentava e conversava com ele por horas, falando sobre botas e joaninhas e sobre a chuva e sobre brincar de amarelinha.Um dia disse:
– deusinho? você quer outro incenso?
– não quero não. na verdade, nunca gostei muito do cheiro. (carlota ficou decepcionadíssima)
– ah, é? e você gosta do quê?
-de crença.
-… . mas eu sou a única que acredita em você.
– pra mim tá bom.
– não sei. papai falou que fé é quando você acredita sem precisar ver. E eu te vejo. Assim não não vale…
E o sol do armário calou e lembrou de um templo 300 metros abaixo do chão e que dizia em hieroglifos indecifráveis sobre um deus-sol sem nome que era tão brilhante que ninguém podia ver. E ele sabia que ela acreditava nele antes mesmo dele aparecer. E ele sorriu e ia lhe dizer ” Mas não é todo mundo que pode ver o sol nos armários”, só que quando abriu a boca ela já estava no quintal observando uma joaninha amarela. A pequena Carlota. Querida Carlota. Então, ele fechou as portas do armário e foi dormir.

turquoise blues

Tinha deliberadamente vestido aquela camiseta, a que tinha significado. Por cima, um pullôver azul turquesa, que é a cor mais bonita do mundo (mais bonita até que o azul confúcio).
Andava pela rua delirando um “ame-me! ame-me!” baixo e balbuciante, apesar de se revoltar com o absurdo daquelas palavras.
Queria esse amor pra quê, se entraria em pânico ao menor sinal de correspondência?
Se tinha pavor de pessoas?
Queria este amor pra quê?
Amarrá-lo num saco e jogá-lo no rio.
Era o que fazia, o que sempre fazia.
Deixa-lo nascer e morrer de frio.

“Ame-me, ame-me”. Era o tipo de pensamento que sentia necessidade de estraçalhar com uma marreta.
Então porque esse pedido insistente? Sentiu vontade de correr até gastar as pernas. De trocar de roupa.
Lembrou-se dos pequenos sinais e sentiu as mãos se crisparem em pavor.
e então já implorava
“Oh, não me ame… não me ame, por favor!”

croniqueta

“Não importa o que a gente escreve. Palavras são sempre eufemismos pra vida”.

Eu ia postar essa frase aqui no blog faz um tempo, mas acabei não postando por causa de uma certa conversa que tive. Estávamos no bar eu, a Da Gaveta e a Da Gaveta Jr. com alguns Absintos recém impressos, quando nos demos conta de que boa parte dos textos continha a palavra “vida”. No “Filosofia de boteco”, 3 de 3 textos da Da Gaveta incluíam a dita cuja.

Eu já vinha reparando que sofro da mesma mania. Excesso de “vida”. E de “mundo”. Aliás, por isso o ridículo “elas são da vida, mas não do mundo” de um certo poema bêbado nosso. Por isso o “seria tão profundo, se não fosse tão idiota”. É fácil demais. É só por a palavra vida, fica tudo poético.

Tinha uma professora que odiava que usássemos a palavra “coisa”. Eu a adoro (a palavra “coisa”, não a professora). Eu a adoro, por que ela me poupa do trabalho doloroso de encontrar a palavra correta que definiria exatamente do que estou falando. Me poupa de ser direta e de revelar mais do que eu gostaria. Daí a proliferação de coisas, vidas, mundos, tudos.

Mas se dar conta de que não consegue escrever sem aquela palavrinha é horrível. É óbvio que estávamos fazendo literatura de segunda. O que fazer? Bani-la. É proibido usar a palavra vida (se bem que já devo ter usado umas 8 vezes nesse texto), íamos ter que nos virar sem ela, por um tempo. Só que vícios como esse são difíceis de abandonar, assim, do nada. Então, por ora, vamos apenas trocá-la. Onde ficaria “vida”, agora estará escrito “putaria” (a palavra que substitui “mundo” não é algo que se deva escrever no blog de uma menina de família). E quer saber? Cumpre a função muitíssimo bem. É capaz que, daqui pra frente, vocês se deparem com coisas como:

“A putaria fica mais fácil com conversas à toa, regadas com vinho barato” (da gaveta)

“Claudinhazinha e as mulheres da putaria”

“Ele é o homem da minha putaria”

ou quem sabe até:

“Não importa o que a gente escreve. Palavras são sempre eufemismos pra putaria”.

Pois é. Fazer o quê? A putaria é assim.