encontros

Quando entramos no restaurante, foi como se o silêncio estivesse ali só para nos receber: o silêncio recolheu nosso casaco, apontou nossa mesa, o silêncio nos trouxe uma cesta de pães. Nenhum de nós tocou neles. Os primeiros encontros são sempre desconfortáveis, mas cá estamos: eu e Kátia entre as toalhas de mesa xadrezes e as velas derretidas pela metade que todos os restaurantes tristes têm.

Ela tomou um gole de água, deixando uma meia-lua de batom na taça, a espiar as mesas ao redor. Eu também procurava algo a dizer, mas já tinha gasto os assuntos fáceis como o trânsito e o tempo, a família e o trabalho no caminho. Abri o cardápio, quem sabe eu não encontraria um milagroso erro de português e riríamos juntos desse restaurante podre que eu escolhi, onde se escreve alho e olho em vez de alho e óleo?

Antes que eu pudesse encontrar qualquer erro escabroso, ela mesma tratou de inventar um assunto.

– Isso na sua mão é uma cicatriz? Uma marca comprida dessas… como foi?

Senti o olhar dela sobre a pequena cordilheira cor-de-rosa nas costas da minha mão. Era como se meu pai estivesse de repente sentado entre nós dois, na lateral da mesa, a reprovação deixando os olhos puxados ainda menores. Houvera sido em um sábado, o sábado da festa de Raíssa, uma das meninas da minha sala. Ia ter piscina, filme, lembrancinha. Só que era de tarde. Manhã, brincar. Tarde, estudar. Essas eram as regras em casa, ditas no mau português que imperava no bairro da Liberdade. Na prática, isso significava que sábados eram cinquenta por cento melhores que os dias da semana, quando as palavras de ordem eram Manhã, estudar. Tarde, estudar mais. Eu tinha um quartinho de estudo que o pai trancava por fora, com nada além de uma escrivaninha, uma cadeira, uma luminária e uma janela, por onde tentei escapar no dia em que Raíssa fazia 11 anos. Que azar. O pai estava bem no quintal, e me puxou pelos cabelos de volta pra casa, até eu cambalear para dentro do quarto, lágrimas e ranho borbulhando de raiva e segurei a porta para ele não me trancar. Hoje não. A porta fechou com força, uma, duas vezes, três vezes minha mão contra a madeira e o metal da tramela antes de eu largar. A mão, molhada de vermelho e inchada demais para segurar um livro. Mas a mãe só conseguiu me destrancar de madrugada, depois do pai ir dormir. Era tarde demais, a festa já tinha acabado. Era meu aniversário também.

– Isso na sua mão é uma cicatriz? Uma marca comprida dessas… como foi? – Kátia esperava a resposta com as sobrancelhas lá no alto.

– Caí de uma árvore. Sabe como são os garotos.

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novidades e velharias

Olá, queridos!

Faz tempo que eu não posto, mas tem conto inédito na revista Vacatussa #6.

Vocês podem baixar e conferir aqui: http://www.vacatussa.com/revista-vacatussa-6/

Também sairam alguns poemas na revista Parênteses, estes que já apareceram por aqui ou no Blog de 7 cabeças.

Está aqui para quem quiser dar uma olhada: http://www.revistaparenteses.com.br/download/parenteses_ed03.pdf

bjs!

concha

A primeira providência, chegando na praia, é demarcar o território: fazer sumir na areia um palmo do cabo do guardassol, chutar as havaianas e abrir o isopor. A segunda providência, mania pessoal, é cavucar a areia úmida com os pés até eles ficarem plantados, enterrados até aqui ó – na canela.

A Dandara acha graça, como acha graça em todas as minhas manias, mas enterrar os pés é sagrado, é o equivalente do que o carregador é pro iPhone, me plugar e sentir a energia borbotando para dentro de mim. Me esvazia da sujeira da semana, da brancura desagradável do escritório, do relatório para terça feira, da gravata que ás vezes parece querer virar forca.

O efeito é imediato, uma tranquilidade muito grande avança e recua em mim, no ritmo do mar. Essa é a mesma praia que eu vinha criança, eu, o pai e os primos, nos fins de semana que eram do pai. Ficou tanta infância nessa areia.

No guardassol à esquerda a menina faz um castelo de respingos com a lama de um balde. Deixa os pingos cairem por entre os dedos, formando torres e muros. Se não tivesse aprendido na faculdade, acreditaria que esse era o método que usava o Gaudi. Não consigo imaginar um elogio maior que esse: tudo que você constroi parece um castelo de areia. Abro a primeira cerveja.

– Amor, você quer?

– Ainda não. Brigada.

A ilhazinha engana tão bem. Finge que é perto. Aos 10 anos parece mais perto ainda, se você tem uma prancha de bodyboard e algo a provar. Meus primos tinham 12, 13. A molecada do prédio tinha mais. O Breno que apareceu com a ideia, Vamos Passar a Tarde na Ilha? E surrupiaram cerveja e cigarro do apê dos pais, tudo enrolado dentro de saco plástico dentro da mochila. A Renata pegava na minha mão e perguntava baixinho Você Vem Também, Né, Neto?, até hoje não sei se ela me queria por perto ou se só não queria ser a mais nova dali.

A menina do guardassol à esquerda agora está concentradissíma na mais nova reforma em sua obra: o fosso duplo com água de verdade, com direito à ponte de palito de picolé na entrada sul.  De longe, o menino mais velho observa inquieto, e qualquer um que foi criança já sabe, só de olhar, que dentro de instantes o menino será godzilla e o castelo será Tóquio.

Eu avisei que a gente ia pra ilhazinha, meio querendo que ele nos impedisse, mas o pai não ligou muito, só falou pro Fábio e pra Renata Fica de Olho Nele, Hem?. Eram 2 da tarde e o sol tava queimando a ponto de todo mundo entrar no mar de camiseta. É estranho mas parece que o pano com água salgada cola mais. Amarrei a cordinha da prancha no punho e me joguei nas ondas atrás dos mais velhos. A lhazinha engana. O mar também. Você acha que nadou 20 metros, mas mal saiu de perto da areia. O sal entrava no olho. A cabeça parecia que ia pegar fogo.

Cada chato tem seu jeito de destruir um castelo de areia. O do menino era com todo entusiasmo que você puder imaginar, correndo desde a água em linha reta, dando impulso e aterrisando com os dois pés no meio da construção. Teve grito, mas em segundos o fosso já era uma fonte lama para tacar no irmão.

É claro que eu fui o último a chegar, vermelho, esbaforido, salgado, com a prancha algemada arrastando no chão. A mulher do padre. Tavam todos estendidos na areia e o Breno começou a distribuir as cervejas mornas de mão em mão. Achei azedo, mas tomei. Ninguém mandou andar com os mais velhos. Se quisesse picolé, que ficasse na praia com o papai.

Do Gaudí miniatura, ficou só um círculo no chão. O menino agora jogava alguma espécie de gameboy compridinho, e a menina pulava ondas, mergulhava, subia, boiava.

Como eu suspeitava, brincar de adulto era um saco. É a brincadeira mais chata do mundo, com bebida amarga e cigarros sem chocolate. Fui dar a volta na ilha, pro tempo passar e achei uma concha muito grande. Dizem que pondo na orelha dá pra ouvir o barulho do mar, mas como saber se o som vinha da concha quando as ondas de verdade estão quebrando bem ao lado? Fui bordejando a ilhota, a areia acabava, daí tinha pedra, a pedra acabava, daí tinha mato, sempre com a concha no ouvido falando Alô, Alô, Houston, Temos Um Problema. E de repente eu ouvi Alô, e gelei. Não era a concha. Era o Breno. Se Perdeu? Tô Só Dando Uma Volta. Entediou? Achou a Gente Chato, Foi? Não, tou só Dando Uma Volta Mesmo. Vou te Mostrar Uma Brincadeira Nova. Cê Nunca Mais vai Ficar Bodeado. Eu tive certeza que eu não ia gostar da brincadeira, podia sentir meu estômago dando cambalhotas dentro de mim. Nesse dia eu descobri como meus instintos são bons, porque meio segundo depois ele puxou pra baixo o elástico da bermuda florida e perguntou Você Já Brincou de Bater Punheta? Eu não sabia o que era punheta e a última coisa que eu queria era ficar lá pra descobrir. Corri de volta, ralando os joelhos nas pedras, e deixei lá o Fábio, a Renata, peguei só minha prancha e fui, fui pra onde tinha sorvete e as pessoas deixavam seus pipis guardados. O pai tava bêbado com os amigos e eu construí uns quantos castelos de areia olhando pro mar, meio culpado de ter deixado os primos lá, com medo deles ali, ilhados com um mostra-pintos.

Se eu pudesse escolher agora, eu teria chutado o cara nas bolas com toda a força.O menino do guardassol à esquerda continua jogando videogame. A menina. A menina está bem longe, e eu vejo só a tampinha da cabeça. Um bracinho e espuma. Essa cena parece estranha e as minhas entranhas de repente começam a pesar dentro do meu corpo. O salva-vidas não está na cadeirinha, e enquanto eu arranco os pés afundados da areia, Dandara levanta os olhos do livro, Que Foi, Amor?

Não dá tempo de explicar, eu aponto e saio correndo, ainda dá pra ver a cabecinha castanha ali no fundo, e agora já não dá, e o sal arde nos olhos quando eu tento enxergar debaixo da água, mas eu fico de olhos abertos e não encontro, e vejo bolhas perto das pedras, mas não era nada, e eu mergulho por mais tempo, vejo o salva-vidas finalmente pulando n’água, mas quando eu subo a onda me afunda e perco a noção de qual lado é para cima, o peito aperta de urgência, mas outra onda me carrega com força e dessa vez eu sinto as pedras, os pequenos mariscos cortantes que moram nas pedras e não preciso de nenhum médico para saber que esse impacto foram minhas costelas se quebrando como um titanic qualquer, o último fôlego escapando do pulmão misturado com um grito, meu pobre corpo automático aspirando água pra dentro de mim, os pulmôes ficando pesados como uma âncora dentro de mim, e agora é impossível não afundar, abro os olhos e não vejo a criança e não sei pra que lado fica o céu, pra que lado fica o chão, para que. Lado. fica.

Minha casa.

Tenho pena.

de Heloísa.

vai sobrar pra ela.

o relatório.

phil collins

Lembra quando você achava que o segredo das coisas era querer?

Lembra quando tudo era fácil e possível,

Lembra que você poderia ser presidente se quisesse

E que bastava escolher para onde você queria ir?

Lembra quando você achava que podia ser bom

E que o futuro era brilhante

E que no fundo

(e na superfície)

só dependia de você?

Bem vindo de volta.

Sentimos a sua falta.

Piada

Emagreça 4 quilos em uma semana com a dieta das marés. Sorte de quem só precisa perder 4 quilos.

 

Fechou a Nova e a ajeitou de volta no topo da pilha de revistas da sala de espera. Essa revista não era para ela. As dietas para quem quer ter barriga negativa. Hoje em dia, ter barriga reta não é suficiente. Ela tem que ser côncava. Pra dentro. As roupas que não existem em tamanhos que ela pode comprar. As posições sexuais que provavelmente foram inventadas por acrobatas.

 

Ajeitou as rugas que se formavam na saia preta de sarja (a mais séria e profissional do guarda-roupa), colocou pra dentro as pontas da camisa de chifon, com discretas estampas coloridas (uma mensagem subliminar: sou alguém com quem você quer trabalhar).

 

Marta descruzou as pernas (cruzadas, sinal de pessoa fechada). Verificou cada botão da blusa. Dois botões desfeitos (uma vagabunda). Um botão desfeito (à vontade). Abotoado até o fim ( uma freira encarnada em Gerente de Marketing). Abriu um botão.

 

Não é como se sua vida dependesse dessa entrevista. Mas é a Coca-Cola. Imagina dizer que trabalha na Coca-Cola? Faz dias que se prepara mentalmente para essa entrevista.

 

Um animal: uma águia. Forte, visão aguçada, sem medo de voar alto. Maior qualidade: persistência. Maior defeito: perfeccionismo, não, que clichê, insegurança. Insegurança é melhor. Um ídolo: Steve Jobs. Um filme: Erin Brokovitch. Ninguém contrata alguém que responde Caça-Fantasmas.

 

*

– Bzzzz. Marlene, manda entrar a candidata.

*

Ombros para trás (confiança, extroversão), passos lentos (tranquilidade) e um sorriso fechado, sem mostrar os dentes (não precisa de muito para um sorriso virar um rosnado). Respira fundo e calcula a expressão perfeita antes de entrar na sala.

 

A expressão perfeita se fixa na sua cara e cai dentro de 2 segundos, como purê de batata arremessado contra a parede.

 

A entrevistadora é baixa, morena, usa óculos de armação vermelha. A entrevistadora usa uma calça de crepe marinho e uma blusa cor de creme, e tem os cabelos presos em um rabo de cavalo perfeito. A entrevistadora tem exatamente a sua idade. E ela sabe disso por que é a Lúcia. A Lúcia da segunda série B.

 

– Bom dia. Lúcia Garcia. Marta, não é?

– Isso. Marta. Marta Levy.

 

Na lente dos óculos da outra, um reflexo branco e redondo. Demorou um pouco para ver o que era. Era ela mesma.Sentiu a boca pastosa.

 

– Por que você quer trabalhar aqui?

– Ah.É… ahm, quem não quer? Rêrê.

– (suspiro) A Coca-Cola Company é uma ótima empresa. Quem trabalha aqui gosta muito. Mas eu quis dizer: por que você deveria ser nossa próxima Gerente de Marketing?

 

Atrás dos óculos, a Lúcia ainda tinha aqueles olhos muito pretos. Muito vivos. Aquele tique de espremer os olhos um pouquinho queria dizer que ela lembrava de Marta? Ou era uma reprovação silenciosa ao seu jeito de falar, de sentar, de existir?

 

– Ah, bom. Rêrê. Eu trabalho com Marketing há quase 10 anos. Eu já trabalhei em 5 empresas, 3 de grande porte. No momento, eu cuido da comunicação da Nabisco. E eu acho que a Dal Valle. DEL Valli… a linha de sucos de vocês estaria em boas mãos.

 

– Aham. Fala um pouco mais do que fez na Nabisco.

 

Se ela se lembra dos tempos do Santa Maria, não dá pra dizer. Marta não sabe o que é maior: o medo dela se lembrar ou a raiva, caso tenha esquecido? E de repente foi como estar de novo na sala, depois que todo mundo saiu para o lanche. O tomate maduro e o sachê de sal, o suco de abacaxi sem açúcar, um dos lanches que o endocrinologista permitia.

 

Na sala, ela não precisava ver as bolachas sendo abertas, nem sentir o cheiro artificial e malicioso dos salgadinhos, nem cobiçar os tazos que vinham ali dentro, coertos de poeira amarela. Naquele dia, ela foi jogar fora seus guardanapos e na volta encontrou um papel de caderno dobrado.

 

– Faz algo como três anos que estou lá. Comecei na divisão de biscoitos salgados. Meu chefe era o Túlio, não sei se você conhece. A campanha do “Nhac. É Nabisco” é da minha época. Que mais? Eu fiz parte do lançamento das embalagens Abre-Fácil…

 

Se deu conta de que estava sacudindo o pé a uma velocidade impressionante. Se obrigou a parar. O bilhete era assinado pelo Otávio. A letra parecia ser dele mesmo e dizia: Me encontra no pátio? O sangue se infiltrou pelas suas bochechas, e pelo calor ela sabia que estava vermelha.

 

Ajeitou a presilha para tirar a franja da testa. Amarrou o sapato. Queria correr até lá, mas não queria se desarrumar ( e, além do mais, as pessoas riam quando ela corria). Então chegou devagar. A sala inteira estava lá.

 

– Sim, acho que lembro dessa campanha. Ou será que estou pensando na Bauducco? E depois? Você continua com os biscoitos salgados?

 

A sala inteira estava lá. Em círculo. O Marcelo segurava o riso. A Márcia, a Lúcia e a Gabi se entreolhavam. Todos pareciam estar prendendo a respiração e olhavam para ela, menos a Sophia, que olhava para o chão. Entre os 20 rostos, achou o Otávio.

 

– Ahm… Não exatamente. Eu. Eu fui transferida para a linha de aperitivos. Bon Gouter, Ritz, Torraditas. Este ano estamos reformulando algumas das receitas… mas não lançamos ainda.

 

A primeira pancada foi no ouvido. Não era duro. Era mais como. Firme. Gelado. Repentino. A segunda pancada foi no ombro. Olhou para o chão. Viu duas peças de mortadela. A terceira pancada foi na nuca. Três peças. Só então voltou a ouvir o som ao redor e, por entre as risadas, seu nome. Marta, Marta-Martadela, Mortadela, Marta. A quarta pancada foi no peito. Martadela. A quinta, na barriga. Marta-Mortadela. Mais-um-quilo-para-ela. Marta-Marta-Mortadela. A sexta, no joelho. Marta-Marta-Mortadela-é-de-porco-que-nem-ela. A sétima, na boca.

 

– Muito bom. Você tem bastante experiência. Qual a sua opinião sobre sucos light?

 

O sinal tocou. O círculo se dissolveu em segundos. Caminhou para a sala como se andasse em um túnel. A freira anotou um atraso em sua ficha. Marta não anotou nada no caderno. Na sala da diretora, suas pernas balançavam, enquanto ouvia a diretora explicar para sua mãe, Deixa, Foi Piada. Brincadeira de Criança.

 

– Bom, tudo que é light está em crescimento, rêrê. A única coisa é que no segmento light, o suco sai em desvantagem por não ser caloria zero.

 

As freiras repreenderam a classe no dia seguinte. Desperdiçar comida é pecado.Ano passado, ela tomou coragem para contar a história da mortadela pela primeira vez fora do Santa Maria. Foi a primeira vez que viu sua analista rir. Aquela freudiana ossuda e sisuda, que tinha como regra não dizer nada além de Boa Tarde e Seu Tempo Acabou. Ela riu.

 

– Que pena, aqui na Coca, a gente considera isso um ponto forte. É mais natural que o resto do segmento. Olha, obrigada…Marta. Seu telefone está no currículo? Devemos terminar a seleção em mais uma semana.

 

Marta esqueceu de apertar firme a mão de Lúcia (confiança, sinceridade) e de agradecer pela entrevista (educação, simpatia). Marta percebeu que deixou a bolsa na sala, e vendo a entrevistadora levantar o rosto, tentou achar qualquer sinal de reconhecimento.

 

Entrou no elevador, mas queria mesmo era entrar debaixo das cobertas e (não deveria) abrir um pote de Nutella.

O Pai da Lúcia trabalhava na Perdigão.

Zózimo (ou: o epicentro do azar)

Rezam as leis da probabilística que, mesmo que a chance de ganhar na loto seja 1 em 7 bilhões, eventualmente algum bastardo sortudo colocará suas novas-ricas mãos naquelas barras de ouro que valem mais do que dinheiro.

Isso não é algo que o universo possa deixar impune, por questões de equilíbrio. Para cada surto de sorte galopante, deve haver uma maré suja de azar equivalente, de proporções atlânticas.

De forma que, a cada geração, surge um Zózimo. Para você, ente pouco escolado nas hierarquias que fazem funcionar a corporação cosmonáutica do universo, explico: o Zózimo é o bode expiatório do azar, a criatura para onde se dirigem de forma simples, rápida e automática os grandes revezes gerados pelas explosões de sorte.

Pois bem. Os Zózimos, como você pode imaginar, não duram muito, mas é possível reconhecê-los. Uma das características básicas do ser humano eleito para a posição é o nome: geralmente algo como Urraca, Antilóquio ou, o clássico, Zózimo.

O que você considera azar, para um deles, seria o dia mais feliz de toda sua vida. Quer dizer, a torrada de um zózimo não cai com a manteiga para baixo, ele come normalmente e depois morre de forma lenta e cruel por um fungo desconhecido que estava no pão.

Ele encontrará uma moeda no chão, apenas para ser atacado por uma capivara recém-saída de um bueiro. Ele ganhará uma aula grátis de surfe, durante o período de procriação do grande tubarão branco. Ele procurará paz em um convento apenas para acabar assaltado por uma quadrilha de freiras.

Quais as chances disso acontecer? Oras, pergunte ao babaca que ganhou na loteria.